sábado, 3 de setembro de 2011

ENTREVISTA DE ALEXANDRA LENCASTRE AO CORREIO DA MANHÃ

  
Interpretar a Joana Rita foi um “presente”, quando não lhe apetecia fazer outra novela. Conta a actriz que a personagem lhe levanta o moral e dá sentido aos domingos passados a ler textos

CM - Como está a ser interpertar a personagem de Joana Rita?
AL - Quando não me apetecia nada fazer outra novela apareceu este presente. As cenas têm sempre alguma emoção, porque a Joana Rita tem garra, tem alguma esperteza saloia, bom coração, e eu, que sou mais frágil do que a Joana Rita, vou lá buscar a minha força. A Joana Rita, personagem, levanta a actriz.

CM - Como surgiu o sotaque?
AL - Gosto muito do Alentejo, tenho amigos alentejanos, o meu primeiro namorado era alentejano. E, como espectadora, tinha pena de que não apostássemos nos sotaques e já fizemos novelas nos Açores na Madeira, no Algarve... Lutei imenso para que a Joana Rita tivesse sotaque.

CM - Só a Joana Rita é que tem sotaque. Porquê?
AL - Nem todos os actores têm a mesma facilidade para sotaques e isso poderia criar discrepâncias. Mas há outra explicação. A Madalena (Manuela Couto) e o Dr. Girão (Paulo Pires) estudaram em Lisboa e eu nunca saí de lá. E o Hermano (Rui Mendes) tenta disfarçar o sotaque, por vergonha. O mesmo se passa com outras personagens para quem o sotaque é sinal de pobreza.

CM - Desde "A Banqueira do Povo", a sua primeira novela, muita coisa mudou?
AL - Aprendemos imenso com a indústria brasileira. Hoje, podemos dizer que estamos perto de ter uma indústria, se é que não chegámos já lá.

CM - Fazia-se uma novela num ano, hoje são duas ou três...
AL - A tecnologia evoluiu, a maneira como os técnicos trabalham, os castings, os estúdios... Olho para trás e vejo uma coisa bonita, amadora, feita com amor, mas que um dia andava e no outro podia parar. Hoje, há uma máquina montada, bem oleada, que funciona e tem as pessoas certas nos sítios certos. Isto dá muita segurança aos actores.

CM - Continua a gostar mais de fazer do que ver novela?
AL - Sim [risos]. Sei que isto aborrece algumas pessoas, mas não é o meu produto de eleição enquanto espectadora. Há uma altura em que temos mesmo de ver para corrigir certos tiques, muletas às quais achamos graça mas mais ninguém acha...

CM - Fazer novela dá um traquejo especial aos actores?
AL - A novela é um óptimo ginásio para um actor, deixa-nos supermusculados. Depois de um trabalho destes, chegamos a uma peça de teatro e rapidamente conseguimos decorar um texto. No cinema, a mesma coisa. Há uma rotina que se cria e que muscula também as emoções. Ficamos melhores actores, somos matéria-prima mais interessante e mais maleável. Qualquer director ou encenador que pegue em nós a seguir a uma novela encontra-nos prontos para rir ou chorar. Temos grande capacidade de resposta.

CM - A Alexandra não troca a TVI por outra estação?
AL - Gosto muito dos colegas com quem trabalho e das pessoas que a TVI convidou para assinar exclusividade. Sinto estar numa boa equipa, estou no lado certo.

CM - Como sentiu as saídas de José Eduardo Moniz e de Gabriela Sobral?
AL - Com muita pena, mas a vida continua. Trabalhei com o José Eduardo na produtora MMM, fui atrás dele para lá e, de repente, ele vendeu a produtora, e eu e todas as pessoas envolvidas (Sofia Aparício, Alexandra Leite...) fomos vendidas com ela.

CM - Apanhou-a de surpresa?
AL - Ele dizia sempre que não seria a primeira a saber, mas, a brincar, prometia que seria das primeiras, talvez a quinta pessoa, a tomar conhecimento de qualquer decisão. Mas isso não aconteceu e acabei por ser apanhada de surpresa.

CM - Concorda com a expressão "guerra" entre estações?
AL - Não. Considero que a "luta" entre canais é um estímulo. A concorrência é sempre positiva. Na TVI, sinto-me em casa. Por isso, resisti a todos os outros assédios, que me chocalharam um bocadinho. Depois da renovação do contrato por mais três anos, senti uma paz enorme.

CM - Ia receber mais?
AL - Sim, mas o dinheiro não é tudo.

CM - Pagam-lhe um preço justo pelo seu trabalho na TVI?
AL - Acho que sim.

CM - Há muito que não faz cinema...
AL - O cinema pôs-me mais ou menos de castigo. O último filme que fiz foi com o João Botelho, o "Desassossego". Foi só uma sessão, feita por amizade. Declino sempre os convites porque a Plural diz-me que não me posso ausentar senão por uns dias. Vou perdendo oportunidades...

CM - E no teatro?
AL - Em 2010, fiz "Um Eléctrico Chamado Desejo", no Dona Maria II, com o Diogo Infante. Foi uma experiência maravilhosa. Consegui porque estava incluída no acordo ainda feito com o José Eduardo Moniz.

CM - Tem alguma cláusula especial no seu contrato?
AL - As minhas filhas têm sido um bocadinho preteridas... Este é o sexto ano consecutivo em que não gozo férias no Verão com elas. Não tenho uma rotina de ir duas semanas para esta ou aquela praia....Tive isso na minha infância. No último contrato, pedi uns dias no Natal, na Páscoa e no Verão para estar com elas, porque é nessa altura que elas estão de férias. Agora estou defendida, já não fico a chorar.

CM - Não é muito reivindicativa?
AL - Não. Nunca fui e devia ser mais. Mas o facto de terem aceitado esta cláusula também é um prémio pelo meu bom comportamento. A conversa sobre o contrato foi rapidíssima, nem 15 minutos durou.

CM - Existe algum desconforto por parte dos actores e técnicos em relação à Plural?
AL - Ao fim de sete meses de gravações intensas, começamos a andar estoirados e, às vezes, um bocadinho intolerantes. Mas sabemos que o nosso trabalho é assim, que as regras são estas. A imprensa especula um bocadinho quando diz que não temos fim-de-semana. Mas à sexta-feira levo para casa os textos das cenas da semana seguinte. Ou seja, não tenho um fim-de-semana completamente descontraído. Levo TPC. Mas há muitas profissões sem horários e sem fins-de-semana, mas que têm outras compensações.

CM - A direcção de actores, a escrita ou a encenação não a seduzem?
AL - Às vezes penso nisso. O André Cerqueira, quando gravámos "Fascínios", era ele coordenador de projecto, tinha-me convidado para dirigir actores e ser assistente na série "Equador", que estava já na forja, ao lado da Manuela Couto, que fez um trabalho extraordinário porque a tarefa era hercúlea.

CM - Mas a tarefa não a fascina?
AL - Não. Ao longo destes anos, talvez a única área onde gostasse de trabalhar sem ser na representação seria a edição. É uma tarefa que acho fascinante, a manipulação de uma imagem pode transformar uma cena corriqueira, insípida, numa altamente picante. Se tivesse tempo, gostava de fazer um curso e de me dedicar durante um ano à tarefa para ver se tinha jeito.

CM - Gostou de fazer "Conversa Indiscreta", na TVI 24?
AL - Gostei e voltaria a repeti-la. O programa foi interrompido abruptamente com a saída do José Eduardo. Permitiu-me conhecer pessoas que de outra forma não teria conhecido. E foi um prazer conhecer gente brilhante da economia, do desporto, da cultura, passando pela religião, pelo regime e o contra-regime. Os meus colegas actores deram-me entrevistas maravilhosas. E a Maria José Nogueira Pinto, não me posso esquecer dela, porque já estava doente e eu não sabia, deu uma entrevista muito comovente, muito autêntica e com uma entrega que nunca lhe tinha visto.

CM - Quem mais a surpreendeu entre as pessoas que entrevistou?
AL - Carvalho da Silva, da CGTP. Foi a maior surpresa, com todo o respeito e admiração por todos os convidados. Surpreendeu--me a vastíssima cultura daquele homem, a sua subtileza, sensibilidade e originalidade. Estava à espera de uma pessoa mais previsível e ele superou as minhas expectativas. E a Maria Filomena Mónica foi outra, nunca pensei que ela aceitasse ser entrevistada. Foi maravilhosa!
   
fonte: Correio da Manhã

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