segunda-feira, 19 de maio de 2014

"XIX Globos de Ouro" - A Análise da Gala do Ano

"A Gala do Ano" quis premiar as artes e o talento nacional. Se é certo que ao nível das audiências a XIX noite dos "Globos de Ouro" pode ter cumprido os propósitos de Carnaxide, certo é também que, no que à qualidade diz respeito, o espectáculo deixou muito a desejar.


Se necessário fosse escolher uma palavra para resumir a "XIX Gala dos Globos de Ouro" desilusão (e todas as definições que o substantivo acarreta) seria a escolha mais óbvia. Erros de continuidade, problemas técnicas (muitos), ausência de ritmo e abundância de piadas sem piada nenhuma - o que não deixa de ser irónico numa gala que se propunha precisamente a celebrar o humor. Mas vamos por partes.

"Revista à Portuguesa meets Broadway", assim definiu Gabriela Sobral a abertura da gala, um dos momentos mais aguardados da noite e que teve em João Baião, recém chegado à SIC, o principal protagonista (e até homenageado). Um número, no seu todo, bem estruturado e produzido por Marco De Camillis e os irmãos Feist, que contou ainda com outras caras da estação como Manuel Marques, Luciana Abreu, João Paulo Rodrigues, João Manzarra, Cláudia Vieira e Diana Chaves. Não foi mau, mas já se viu melhor - bem melhor - nestes "Globos de Ouro".

Bárbara Guimarães, a anfitriã da noite, não escondeu o nervosismo no começo do espectáculo e, no decorrer deste, não conseguiu brilhar como em anos anteriores, principalmente durante a primeira parte, facto que foi tentando reverter com o aproximar do fim do gala. 

Numa edição marcada por sucessivos problemas técnicos - e imperdoáveis num evento que é preparado ao pormenor durante quase meio ano - os "XIX Globos de Ouro" apresentaram um palco diferente do habitual, bem iluminado, com linhas simples e modernas. Um dos pontos fortes da noite. Também os grafismos e oráculos, que ao longo da noite pintaram o ecrã, primaram pela qualidade estética e foram, talvez, os melhores dos últimos anos. A realização não desapontou e a orquestra esteve, como sempre, irrepreensível. 

Os vencedores da noite (ver lista completa aqui) foram, no seu geral, justos. Sem grandes surpresas, Sara Matos foi eleita pelo público como a Revelação do Ano. Apesar de muito bem entregue, já que a actriz é um diamante em bruto com muito talento por lapidar, este prémio acaba por se tornar injusto pois coloca no mesmo saco várias áreas. Todos os nomeados tinham grande mérito, e todos mereciam levar o globo para casa. Mas o público é soberano e escolheu o seu favorito. 

Dos restantes prémios, o de Mérito e Excelência foi talvez o que mais surpresa causou. Nas nossas previsões (que apontavam para alguém da representação), nunca nos passou pela cabeça este desfecho - justíssimo, por sinal. Às vezes, é bom ser surpreendido e os "Xutos e Pontapés" merecem esta distinção. Não podemos, também, deixar de destacar o excelente trabalho feito com o vídeo e texto que consagrou a banda portuguesa de rock.

De resto, não houve grandes surpresas com os prémios atribuídos. Cristiano Ronaldo foi novamente eleito Melhor Desportista Masculino, troféu que tão cedo, e enquanto for nomeado, não deverá largar, o que acaba por desvirtuar uma categoria que se chama Desporto e não Futebol. Mas o desporto rei tem sempre uma palavra a dizer. Já no Teatro, estávamos convictos de que o prémio de Melhor Actor seria entregue a João Baião, mas foi João Perry quem levou a melhor. Tanto um como outro mereciam. Na Moda e no Cinema, as nossas expectativas foram mais ou menos confirmadas.

Na Música, Gisela João, também nomeada na categoria Revelação, ganhou o Globo de Melhor Interprete Individual, perante nomes como Camané, Paulo Gonzo e Pedro Abrunhosa. E já que falamos em Música, impõe-se fazer um apontamento às actuações dos quatro temas nomeados para a Melhor Música. Momentos bastante positivos face a uma gala com saldo negativo. No final, o eleito foi o tema "Para os braços da minha mãe", de Pedro Abrunhosa. Uma vez mais, uma atribuição justa mas sem grandes surpresas.

Não há vencedores sem vencidos, diz-se, mas uns e outros mal se viram nestes "Globos". Dizemos isto porque dos 64 nomeados poucos foram os que se dignaram a estar presentes no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, o que por si só é vergonhoso. E começa a ser recorrente este processo de mandar alguém receber o Globo em seu nome. E a emoção dos discursos, onde fica? Os sorrisos? As lágrimas? As críticas ao estado da cultura? Bem, começam a perder-se. Uma noite muito pouco emotiva que teve no público um inimigo: uma plateia apática, muito pouco efusiva, com gargalhadas quase retiradas a ferro.

Mas até conseguimos compreender esta questão das gargalhadas (ou da falta delas) numa gala dedicada ao humor onde piada foi o que mais faltou. Quem escreveu os vídeos que introduziram as categorias esqueceu-se da piada, certamente. E os momentos de humor em directo, embora não tenham sido maus, cumpriram menos, bem menos, do que aquilo que prometiam. Se Luciana Abreu, João Paulo Rodrigues e Pedro Alves foram competentes, o mesmo não podemos dizer de João Ricardo, cujas intervenções praticamente não se ouviram (e a verdade é que as personagens cómicas do actor também já começam a cansar). Se em anos anteriores o modelo de humor (com dois humoristas a comentar nos camarotes) resultou, porque não haveria de resultar agora? Às vezes menos é mais. Talvez para o ano voltem atrás na decisão de andar a passear pela plateia.

Os brasileiros Paolla Oliveira e Malvino Salvador e a cantora Anastacia foram as atracções internacionais de uma gala que liderou a noite televisiva de domingo. Mas nem só de audiências se faz a televisão (ou pelo menos, assim não devia ser) e, como aqui já referimos várias vezes, houve erros imperdoáveis nesta gala - técnicos (câmaras perderem o sinal é gravíssimo), de produção, de timmings (então, Dona Júlia, onde já se viu deixar um país inteiro à espera?) - e que, sinceramente, não esperávamos.

Esperávamos mais e melhor. Esperávamos as tradicionais rábulas aos programas de sucesso da SIC e que com certeza melhor introduziriam as categorias. Esperavamos um número com concorrentes do "Factor X" (como já aconteceu, por exemplo com o "Portugal Tem Talento" ou o "Ídolos"). Lamentavelmente, nenhum concorrente, nem o vencedor, ali marcou presença. E muitas questões ficam no ar. Onde ficou a critica social à actualidade que sempre tem caracterizado os "Globos de Ouro"? Parece que só a Eurovisão teve importância, e referências à saída da troika, nem vê-las! E as homenagens, acabaram? Com perdas tão significativas nas várias categorias (por exemplo, Eusébio no Desporto ou Augustus na Moda), este ano, mais do que nunca, impunha-se homenagear quem já partiu. 

Estarão a SIC e a Caras a perder o jeito? Queremos acreditar que não! Terão sido as más energias de Teresa Guilherme, "desconvidada" da gala, a atrapalhar o espectáculo? Também queremos acreditar que não. Ironias à parte, o certo é que esta "XIX Gala dos Globos de Ouro" prometia mais, muito mais do que aquilo que ofereceu. Começar já a preparar a próxima edição talvez não seja má ideia. Pode ser que, na comemoração dos 20 anos do evento, nada falhe e possamos assistir a um verdadeiro "big show" de ouro.

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