quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Especial “Ídolos” VI | a análise - DE OLHOS POSTOS NO TALENTO


A 7 de Fevereiro de 2015 a imprensa dava conta do regresso do mais aclamado formato de caça talentos do mundo e um dos mais bem sucedidos em Portugal. Foi com um misto de estranheza e satisfação que, ainda sem confirmações oficiais, encaramos o regresso do "Ídolos" ao pequeno ecrã, não por divergências com o formato (se assim fosse não teríamos escrito sobre ele ao longo de dezanove semanas), mas essencialmente por se tratar de uma aposta num género repetido - e já sabemos como funciona o público e a crítica televisiva quanto a este aspecto.

Embora tendamos a discordar desta ideia - veja-se o exemplo do "American Idol" ou do "The X Factor UK" que ao longo de várias temporadas se souberam sempre afirmar - a verdade é que a adesão do público à segunda temporada do "Factor X" (terminada em Janeiro) não tinha sido a melhor, e na procura pelo novo talento da dança em "Achas Que Sabes Dançar?" o cenário não estava a ser muito diferente. Quando a concorrência também parecia disposta a competir neste terreno - depois do "The Voice Kids" a RTP apostava em "Got Talent Portugal" -, o regresso do "Ídolos" poderia representar um risco enorme para um canal comercial que vive dos anunciantes e das receitas publicitárias impostas pelas audiências.

A confirmação não tardou a chegar com a abertura das inscrições e depressa arrancaram os castings na capital e na invicta. O hype entretanto gerado ficou muito aquém do de outras edições (o que poderia antever mais um insucesso), mas convictos de que em Portugal há muito talento por revelar e de que esta é uma óptima janela para o fazer, reservamos bastantes expectativas para este "Ídolos" 2015, designadamente na sua capacidade de se modernizar e reinventar. Cinco meses passaram, e depois de muitas dúvidas, inquietações e polémicas, a sexta temporada do "Ídolos" chegou ao fim. Nesta análise especial, vamos estar de olhos postos no talento. No talento dos concorrentes. No talento do apresentador. No talento de uma larga equipa de profissionais responsável pela execução deste programa. E até mesmo na falta de talento de uma estação perante um formato de tão grande qualidade. Vamos olhar detalhadamente para toda a temporada, numa análise especial que assinala também a despedida desta rubrica.

UM NOME, UMA IMAGEM DE MARCA

A ausência de Cláudia Vieira na condução do formato ao lado do colega e amigo João Manzarra foi um dos tópicos de conversa mais badalados aquando do anúncio deste regresso. Depois de cinco temporadas com uma dupla de apresentadores - as duas primeiras com Sílvia Alberto e Pedro Granger - João Manzarra regressou sozinho para uma sexta temporada do programa que o viu crescer como profissional e o tornou num dos rostos mais queridos da televisão portuguesa.

Houve, claro, espaço para críticas, ou não fosse a televisão portuguesa a tv das duplas, que de manhã à noite nos invade com os mais variados pares de apresentadores, mas desde logo aplaudimos esta opção, até porque fazia antever uma aproximação à versão americana (e que se veio depois a confirmar na redução do painel de jurados e na renovação gráfica do programa).

Ao longo de todas as fases da competição, João Manzarra justificou por completo esta escolha, apresentando diferentes perfis que soube articular e transformar conforme era necessário, desde as brincadeiras da fase dos castings às exigências impostas pelos directos. Sozinho deu conta do recado, e teve para nós o melhor desempenho de sempre num programa por si apresentado. Mérito seja também dado à equipa de profissionais que a FremantleMedia Portugal reuniu para esta sexta temporada e que foi responsável pela idealização de grande parte dos momentos protagonizados pelo apresentador. Manzarra foi, de facto, o corpo perfeito para a execução das ideias desta equipa criativa.

OS ROSTOS MAIS TEMIDOS

A escolha do painel de jurados é um dos pontos chave para o sucesso de qualquer talent show e a sua apresentação um dos momentos mais aguardados pelo público (e que pode desde logo influenciar a sua adesão ao formato). Muito se especulou sobre quem se iria sentar na mesa de jurados deste "Ídolos" 2015, e sobre quem assumiria o papel de "vilão" até então ocupado por Manuel Moura dos Santos. A SIC e a FremantleMedia resolveram surpreender nesta escolha e apresentaram um renovado painel que, apesar das muitas e infundadas críticas, nos pareceu bastante capaz e se revelou bem mais competente que, por exemplo, o da edição passada.

Depois de marcar presença nas temporadas de 2009 e 2010 (as de maior sucesso), Pedro Boucherie Mendes regressou à mesa que o deu a conhecer ao grande público com as mesmas frases feitas e expressões difíceis que tanto têm de acessórias como de essenciais para o programa. Para trás ficaram as muitas informações da Wikipedia e a postura insensível, que deram lugar a um sentido paternal para com os candidatos. De um registo diferente, mas não menos acutilante, chegou Paulo Ventura. Com a escola de duas temporadas do "Factor X" o manager de artistas assentou que nem uma luva no formato e, ao longo de todo o programa, disse sempre o que tinha a dizer e nunca aquilo que queriam ouvir, tornando-o o alvo mais fácil de críticas. Mas foi aquele que, no nosso entender, melhor cumpriu a sua função.

A grande novidade prendeu-se com a figura feminina. A escolha de Maria João Bastos foi um dos pontos mais criticados da temporada. Existe em Portugal uma ideia pré-concebida de que ser músico é uma condição sine qua non para se integrar um painel de jurados deste género, e tal não é necessariamente verdade. O "Ídolos" em nada se assemelha a formatos como "The Voice" ou "The X Factor", tem outras motivações e aspirações, e o júri pode ser tão diversificado quanto assim se permitir (a própria apresentadora Ellen DeGeneres já foi jurada do "American Idol"). Maria João Bastos cumpriu na perfeição o que lhe era exigido e, apoiada por dois profissionais já experientes nestas andanças, manteve uma postura irrepreensível em todas as fases, bem mais agradável que a expressão de frete de Sofia Morais, o "carisma" de Roberta Medina ou a alegria de Bárbara Guimarães.

Se sentimos falta de um quarto nome neste júri? Pode até dizer-se que sim, talvez pelo facto de, ao longo de cinco temporadas, toda a mecânica do programa ter estado associada a quatro elementos. No fundo, uma questão de hábito; mas os hábitos mudam-se, e entendemos que esta redução tenha sido impulsionada pela aproximação à produção americana e com a qual o formato só saiu a ganhar - disso, estamos certos!

UMA NOVA GERAÇÃO DE TALENTO

São eles o sumo de qualquer formato de caça talentos e é neles que estão depositadas as maiores expectativas. Falamos dos concorrentes, cujo sonho alimenta a narrativa destes programas - e não esqueçamos nesta equação os já tradicionais "cromos", que muitas gargalhadas propiciam a todos os espectadores. Houve de tudo neste "Ídolos", e não temos dúvidas de que assistimos à escolha do mais interessante leque de candidatos de sempre, fruto de um casting equilibrado que deu a conhecer jovens talentosos, carismáticos e repletos de potencial artístico.

O verdadeiro potencial dos candidatos, como aqui tivemos oportunidade de referir, só se fez notar com a chegada do teatro, numa fase em que se confirmaram grandes talentos e se revelaram outros depois de castings mais modestos. Se, na fase das audições, alguém afirmasse que o "desengonçado" João Couto (como ele próprio se apelidou) seria o grande vencedor do programa ninguém acreditaria. Mas o certo é que ganhou, e ganhou muitíssimo bem! O seu percurso ascendente no programa veio apenas demonstrar que, neste "Ídolos" 2015 tudo podia, de facto, acontecer - e aconteceu! A capacidade de trabalho e evolução de todos os concorrentes foi enorme e muitos dos que eram inicialmente apontados como favoritos depressa foram cedendo o posto para talentos emergentes.

Nas galas marcaram presença doze equilibrados artistas, naquele que foi o mais renhido leque de finalistas de que temos memória. Já não se trata apenas da voz; trata-se da emoção, do espetáculo, da postura em palco, da empatia com o público. E nesse aspecto, os doze estudaram bem a lição. Semana após semana, fomos surpreendidos com escolhas musicais nada óbvias, com temas ousados e arranjos rebuscados, em tudo distantes dos tradicionais karaokes com que este tipo de programas já nos massacrou. E foi um enorme prazer ver e ouvir a língua de Camões em praticamente todas as galas. O talento, a inteligência, e a musicalidade foram uma constante e a qualidade que esta temporada apresentou deve-se em grande parte a estes concorrentes.

A EXPERIÊNCIA DE DOZE ANOS

Seis edições e doze anos de experiência fazem do "Ídolos" um dos mais notáveis programas a nível nacional - uma verdadeira máquina de entretenimento televisivo. Em 2003, a ainda jovem FremantleMedia Portugal estreava-se nesta aventura e, doze anos volvidos, a evolução não podia ser mais notória, fruto não só da mudança dos tempos mas principalmente do know how que a produtora foi adquirindo nos últimos anos. O "Ídolos" cresceu, reinventou-se, modernizou-se. A equipa liderada por Frederico Ferreira de Almeida fez um trabalho notável quando, bem sabemos, nem sempre teve as melhores ferramentas ao seu dispor. E mostrou que, com os profissionais certos, é possível inovar sempre!

Esta evolução pôde ser comprovada logo na primeira emissão, numa estreia marcada por bons resultados audimétricos e por um enorme buzz nas redes sociais - com a hashtag oficial a alcançar destaque mundial. Espaços renovados, uma imagem modernizada, uma realização aprimorada e uma edição ritmada no ponto certo, numa clara aproximação ao que se faz em terras americanas. Ficou somente a faltar, como aqui insistimos várias vezes, a utilização de um novo genérico (até porque o "velhinho" destoa por completo da renovada imagem do programa), mas foi um mal menor que não deitou por terra as restantes modificações.

A qualidade manteve-se na fase do teatro, com a introdução de alterações que vieram enriquecer a dinâmica da competição, e assim continuou na fase dos directos, que foram o expoente máximo do trabalho desta equipa. Assistimos, de facto, a dez galas muito bem produzidas e que foram bastante superiores a qualquer outra produção assinada pela Fremantle nos últimos anos. Espetáculo foi a palavra de ordem e em palco nada faltou. Uma palavra de apreço seja também endereçada aos Bandídolos, aos bailarinos e respectivos coreógrafos, aos responsáveis pela idealização e montagem dos adereços cénicos e a todos os técnicos no estúdio e na régie.

Por outro lado, há ainda um longo caminho a percorrer nas plataformas online, embora saibamos que a gestão das mesmas não é total responsabilidade da produtora mas principalmente da equipa da SIC Online. Numa próxima edição deste ou de outro formato, esta gestão deverá ser entregue por completo a quem produz o programa, no sentido de haver uma maior articulação dos vários conteúdos e redes sociais. Veja-se, por exemplo, que a conta oficial do "Ídolos" no YouTube (gerida pela produtora) não merece qualquer destaque no Facebook oficial ou no website, uma tendência que já transita de programas como "Factor X". Mas existem outras e importantes considerações a fazer sobre o papel da SIC neste processo e sobre as quais nos debruçaremos de seguida.

O INSUCESSO COMERCIAL

Os fracos resultados audimétricos desta temporada são óbvios, e face ao seu percurso decrescente em share e rating muitas questões se poderão colocar. Terão os portugueses virado costas ao formato? Não nos parece, de todo, que tal tenha acontecido. Estará esta fraca adesão relacionada com a menor qualidade da produção ou dos concorrentes? Temos a certeza que não, até porque se dependesse apenas destas variáveis esta tinha sido a temporada com maior visibilidade. Terá sido influenciada pela época do ano em que foi exibida? Em parte sim, porque nas estações frias (a época da televisão por excelência) a pre-disposição para ver televisão é muito maior. Mas não há uma única resposta que possa esclarecer todas as estas questões, talvez um estudo de mercado aprofundado o consiga fazer numa óptica comercial.

Mas a uma situação não podemos fechar os olhos: o "Ídolos" 2015 foi francamente maltratado pela estação e isso, não temos dúvidas, ditou parte deste insucesso. O cúmulo destes maus tratos aconteceu precisamente na fase dos directos. Não serão necessárias investigações académicas para concluir que, com galas a começar perto das 23h (para dar lugar a enlatados de apanhados) e a terminar de madrugada, não há público que resista! Aquilo que a SIC fez não foi só desacreditar o formato; foi desrespeitar o público e, acima de tudo, desperdiçar jovens talentos que mereciam outra visibilidade num horário bem mais nobre.

Esta quase invisibilidade foi uma constante ao longo de toda a temporada e, exceptuando as promos às emissões semanais e um ou outro apontamento feito pela voz-off do canal, o "Ídolos" não foi rentabilizado em antena como noutras ocasiões - uma situação no mínimo caricata se tivermos em conta que o day time da estação pertence à mesma produtora. Veja-se, por exemplo, que nas cinco temporadas anteriores os concorrentes eliminados foram marcando presença nos programas do canal, mas este ano tal não foi opção; assim como não foi opção a abertura das votações imediatamente após a semifinal, de forma a decorrerem ao longo de toda a semana (o que poderia envolver mais público para a gala final). E uma final merecia bem mais que a simples presença dos três finalistas no "Grande Tarde".

Este tratamento diferenciado prosseguiu no dia seguinte à final. Depois de uma visita de médico ao programa de Júlia Pinheiro (integrada num espaço cor-de-rosa, veja-se bem!), João Couto não marcou presença no "Jornal da Noite" assim como Berg, Filipe Pinto ou Diogo Piçarra. E nenhum apontamento, por mais pequeno que fosse, foi feito sobre a sua vitória. Pior ainda: foi emitida uma reportagem alargada sobre a presença de Conchita Wurst na gala, mas que ignorou por completo o programa e os seus concorrentes. Já sabemos que a polémica "mulher de barba" é por si só notícia, mas este desprezo pelo programa foi por demais evidente. Terá um talent show interesse noticioso? Não muito, mas também não o tinha há dois ou três anos. E convenhamos: quando num noticiário há espaço para a mostra de selfies e para exibir casas milionárias de jogadores de futebol, há espaço para tudo!

Agradecemos de verdade à SIC por nos ter dado oportunidade de assistir a mais uma temporada do "Ídolos", mas acreditamos que este grande formato, que muitas alegrias já trouxe à estação, merecia ter recebido um outro tratamento. Esperamos que, numa próxima edição, tal não se volte a repetir. E já agora, que seja integralmente transmitido em 16:9, bem como toda a emissão do terceiro canal. A ver vamos!

UM FUTURO INCERTO

Dos EUA chegou-nos recentemente a notícia do cancelamento de "American Idol" por parte da FOX. Em 2016, o programa que mais talentos deu a conhecer do outro lado do atlântico chega ao fim, naquela que se avizinha ser uma despedida em grande do formato. Face a esta tendência, e depois do insucesso comercial da edição deste ano, irá o "Ídolos" regressar à antena SIC? Uma hipótese provável é o "Factor X", já testado, ocupar definitivamente o seu lugar, passando a ser uma aposta mais recorrente do canal. Outra, menos provável, é a estação fazer uma pausa alargada em formatos de música para, passado um longo período, os fazer regressar ao ecrã.

O "Ídolos" tem, no nosso entender, todas as condições e mais algumas para voltar aos ecrãs nacionais. Mas, como qualquer outro programa, tem que continuar a reinventar-se e a inovar, seja nas questões gráficas, na mecânica do concurso, no aumento da interactividade ou até na implementação de novas formas de votação. A equipa da FremantleMedia Portugal já provou ser capaz de o fazer, e demonstrou nesta sexta temporada que, mesmo perante as dificuldades decorrentes de um orçamento reduzido, é possível fazer mais e melhor. Basta ter criatividade!

Num futuro muito próximo seria interessante a organização de mais uma edição da "Idolomania". Veja-se os exemplos que nos chegam do exterior, nomeadamente do Reino Unido e dos EUA, onde já é tradição a realização destas digressões logo após o término das temporadas. Trata-se de um excelente meio para potenciar um início de carreira a muitos destes artistas e de os ajudar a entrar no mercado. Mas, aparentemente, a digressão em terras lusas não voltará a acontecer, reflexo de uma falta de interesse generalizado neste tipo de programas, não só dos canais mas também dos promotores de eventos.

Ao longo das últimas semanas, fomos aqui deixando os nossos gostos, avaliações e críticas. Levamos até si análises tão fundamentadas quanto nos foi possível, decorrentes de uma paixão enorme pelo formato e de um acompanhamento minucioso de todas as emissões. Manifestamos sempre as nossas opiniões, que são tão válidas como as de qualquer outro espectador, e até fomos alvo de críticas - quem não o é? Ficamos aborrecidos com algumas escolhas mas também nos alegramos com outras, e no final até festejamos a escolha do novo ídolo de Portugal. Afinal, o "Ídolos" é isso mesmo: é vivência, é envolvência, é a revolta momentânea e a felicidade que não tarda em chegar. E é também saudade, aquela saudade com que, neste momento, escrevemos estas últimas palavras, já de olhos postos numa próxima edição. Que este não seja um adeus, seja antes um até já. Vemo-nos na sétima temporada!

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