sábado, 10 de outubro de 2015

OPINIÃO | O 16:9, a informação e a eterna fase de testes


Era um formato de imagem há muito reclamado para Portugal e ao qual, sempre fiel a si própria, a televisão nacional resistiu, resistiu, e voltou a resistir. A 3 de outubro de 2015, há precisamente uma semana, o 16:9 invadiu por completo a totalidade dos canais generalistas e de informação portugueses, numa mudança que teve tanto de tardia como de repentina (veja-se que aconteceu quase sem aviso prévio em antena).

Uma semana depois da entrada em cena deste moderno (assim deveria ser encarado) formato, assistimos ainda a afinações e alterações gráficas, muitas delas certamente impulsionadas por indicações das direcções ou pelo feedback do público. Receamos estar perante uma eterna fase de testes, onde a cada dia se melhora um pormenor e se piora um outro. Mas olhemos para alguns conteúdos de informação nacionais para termos a noção perfeita destas trocas e baldrocas sem fim.

DE BESTIAL A BESTA

A equipa criativa da Bloom Graphics, responsável pela generalidade do trabalho gráfico de Carnaxide, habituou-nos desde sempre a um trabalho de grande qualidade, nomeadamente na área da informação. No passado sábado, a alteração do formato de imagem da SIC Notícias foi acompanhada de uma inesperada renovação dos oráculos, que foram redesenhados para se enquadrarem no recém estreado 16:9. Fomos agradavelmente surpreendidos com novas tonalidades de cor, onde o vermelho (imagem de marca do canal) perdeu terreno para o cinzento.

Não tivemos dúvidas em afirmar que se tratavam dos melhores oráculos alguma vez vistos na informação televisiva portuguesa, e que primavam acima de tudo pela modernidade impressa no ecrã. A renovação gráfica foi transversal aos principais blocos noticiosos da SIC, o "Primeiro Jornal" e o "Jornal da Noite". Mas foi sol de pouca dura.

As alterações não tardaram em chegar; o vermelho foi a pouco e pouco regressando e, durante o dia deste sábado, aconteceu o impensável: além de uma escusada alteração de cores, os oráculos sofreram um aumento significativo, que em nada dignifica o moderno formato de imagem. Os elementos gráficos surgem agora no ecrã quase como um elemento distractivo, com caracteres que chegam a impressionar de tão grandes. Uma mudança completamente desnecessária, que nos leva a perguntar: porquê, SIC, porquê?


AZUL. AZUL. AZUL.

"Informação. Informação. Informação." é o lema da recém estreada RTP 3. Muitas eram as expectativas em relação à substituta da RTP Informação no cabo, mas aquando da sua estreia, em plena noite eleitoral, foram imediatamente defraudadas. Muitos poderão afirmar que se trata de uma opção pela simplicidade. Mas, no nosso entender, há uma linha que separa a simplicidade da pobreza.

É de facto pobre, muito pobre, o trabalho gráfico pensado para um canal que se apresentou desde logo como moderno - e pelo menos na questão gráfica, de moderno tem muito pouco. Os oráculos assemelham-se quase a uma simples combinação de rectângulos trabalhada em PowerPoint. Talvez a expressão "Azul. Azul. Azul." fosse o slogan mais acertado, tal é o uso desmedido desta tonalidade. E atenção: nós gostamos de azul!

Sendo este um canal que levou praticamente meio ano a ser preparado (note-se que desde a entrada da nova direcção se falou na sua estreia) este parece-nos ser um produto final bastante fraco. Temos a certeza que os criativos da RTP poderiam ter feito melhor, bem melhor, como aliás já o fizeram noutras situações - veja-se, por exemplo, toda a linha gráfica do "Jornal 2", ainda no ar no segundo canal do operador público.


ESTICA, FILHO, ESTICA

Se uns optaram pela simplicidade, outros há que enveredaram pelos caminhos do facilitismo. Foi o caso da TVI que, para não ficar atrás da sua eterna rival, se apressou a alterar o formato de imagem e deixou o resto por fazer. Os oráculos já utilizados na informação permaneceram inalterados e, ao invés de terem sido adaptados em proporção ao ecrã, sofreram antes uma enorme distorção.

Talvez a frase "Concatena, filho, concatena", do programa "Isso é tudo muito bonito, mas" (que chegou ontem ao fim) tenha ecoado de tal forma pelos corredores de Queluz de Baixo que, a determinado momento, assumiu a forma de "Estica, filho, estica". Trocadilhos à parte, seria esperado um maior respeito pelo 16:9 por parte da equipa criativa da TVI.

E veja-se que esta política do "estica" foi também transversal a grande parte da linha gráfica do entretenimento do canal. E seria tão simples a correcta adaptação dos grafismos, quanto mais não seja, numa fase de transição, sendo colocados ao centro do ecrã de forma a não sofrerem distorção.



Terão estas mudanças e alterações gráficas sido impulsionadas pelas reacções do público e das equipas de chefia? Muito provavelmente, sim. O público português foi, desde sempre, habituado a uma televisão muito tradicional e nem sempre os saltos de modernidade têm o efeito desejado. Talvez por isso a SIC tenha repensado o modelo gráfico e a TVI o tenha mantido inalterado. Mas se é verdade que a televisão deve ir ao encontro das exigências dos espectadores, o contrário também se deveria verificar.

Somos apologistas de que o público se deve adaptar aos conteúdos que os canais lhe oferecem. Os media, não esqueçamos, têm essa mesma função de educação. E se é certo que a televisão portuguesa precisa de se modernizar, mais certo é que os consumidores televisivos necessitam ainda mais de dar esse salto. E convenhamos: estes avanços e recuos não ajudam em nada no processo.

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