quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

"The Voice Portugal" em análise | especial terceira temporada


Em maio de 2015 a imprensa noticiava o regresso do mais bem-sucedido concurso de talentos da RTP. A confirmação oficial não tardou a chegar e a 11 de outubro a terceira temporada do The Voice estreava no pequeno ecrã. Três meses depois, a 10 de janeiro de 2016, a adaptação portuguesa de um dos mais aclamados formatos televisivos do mundo chegou ao fim.

O sucesso junto do público é inegável. Domingo após domingo, o The Voice Portugal conquistou os portugueses e fez a concorrência tremer. Nesta edição especial da rubrica que nas últimas semanas acompanhou o talent show, traçamos o balanço de toda a temporada, num olhar minucioso em que nada nem ninguém será esquecido.

CONDUTORES DE EMOÇÕES

Catarina Furtado (a veterana no formato) e Vasco Palmeirim assumiram novamente a condução do programa. Esta simpática e já testada dupla cumpriu exemplarmente a sua função, mantendo uma sintonia única tanto nas fases gravadas como nos directos.

Das Provas Cegas às Batalhas, dos Tira-Teimas às Galas, tivemos sempre presentes o humor e a energia incessante de Palmeirim, aliados à experiência, à emoção e à enorme beleza de Catarina. Um formato destes não pedia melhor!

Numa redução significativa do número de apresentadores face à temporada de 2014 (de cinco para três), Jani Gabriel assumiu o papel de Repórter V, outrora desempenhado por Laura Figueiredo. Uma escolha à primeira vista inesperada, mas que no fim de contas se revelou acertada. Jani foi competente na condução dos diários e dos conteúdos exclusivos da internet e surpreendeu aquando dos directos, nas várias ligações à Sala Vermelha.

EM BUSCA DO TALENTO

A imprevisibilidade de Rui Reininho (quem não se lembra da polémica saída em directo?) foi solucionada com o seu afastamento do formato, deixando vago o seu lugar de mentor. Muito se especulou sobre quem ocuparia esta cadeira e vários nomes foram apontados, naquela que foi a novidade mais aguardada da temporada.

Áurea, a escolhida para ocupar o lugar, foi apresentada aos espectadores num directo via Facebook, numa iniciativa inédita em Portugal e que espelha o excelente trabalho de social media feito neste The Voice e do qual falaremos mais à frente. Com a escolha da cantora para o papel de mentora saiu também reforçada a presença feminina no painel.

Anselmo Ralph, Marisa Liz e Mickael Carreira, já experientes no formato e sempre iguais a si próprios, receberam com agrado a intérprete de Busy For Me. Juntos, os quatro mentores iniciaram nova odisseia na busca pelas melhores vozes de Portugal, numa competição onde não faltaram as picardias (saudáveis), as lágrimas, os sorrisos e muita, muita emoção.

AS NOVAS VOZES DE PORTUGAL

Nesta temporada conhecemos um interessantíssimo leque de concorrentes, reflexo de um competente trabalho de casting. As dezenas de vozes que pelo palco do The Voice Portugal foram passando primaram pelo enorme talento e quase não houve espaço para actuações menos boas ou até más.

Tal talento fez-se notar logo nos primeiros episódios, com algumas das melhores Provas Cegas de que há memória. Curiosamente, e como aqui fomos constatando, o evoluir da competição (nomeadamente os directos) trouxe actuações menos conseguidas, fruto talvez do pouco controlo dos nervos por parte dos concorrentes e de uma ou outra escolha menos positiva por parte dos mentores. Apesar disso, acreditamos que num futuro próximo muitos destes nomes poderão ter lugar no mercado nacional - assim haja vontade e trabalho dos próprios e interesse das entidades competentes.

Na playlist que se segue reunimos as melhores actuações. Não se trata de um top (até porque a sua construção seria uma tarefa por demais ingrata); trata-se sim de uma selecção de 20 actuações que marcaram a temporada e que aqui merecem destaque. A ordem com que são apresentadas é por isso aleatória.


O título de nova voz de Portugal foi, sem surpresas, entregue a Deolinda Kimzimba, apontada como favorita desde a primeira Prova Cega. Não querendo retirar o mérito à concorrente de Mickael Carreira, dona de um talento extraordinário e de uma voz surpreendente, consideramos que recebeu um tratamento desigual por parte da produção face a outros concorrentes, situação que aliás não foi única e cujas considerações faremos mais à frente. Tratamentos à parte, Deolinda foi uma justíssima vencedora do formato e não duvidamos do enorme potencial da sua carreira.

SABER FAZER

Se houve muito talento do lado dos concorrentes, houve ainda mais talento do lado da produção. A enorme qualidade do programa que ao longo de vários domingos chegou a casa dos portugueses teve um grande responsável, de seu nome Shine Iberia Portugal. As dezenas de profissionais desta equipa, muitas vezes esquecidos pelo público, merecem aqui uma palavra de apreço. Sem eles este sucesso não seria possível!

Ao longo das nossas análises fomos estendendo vários elogios a toda a produção deste The Voice Portugal, e que aqui renovamos. Mas também houve espaço para as falhas - afinal, nem tudo é perfeito, e se o fosse seria até aborrecido! Destacamos, a este respeito, os erros de montagem de alguns episódios, resultantes da desigual distribuição dos concorrentes, e que foram particularmente visíveis nas últimas emissões de Provas Cegas e Batalhas, em que assistimos ao enlatamentos de actuações.

Nota também negativa para os tratamentos diferenciados que falamos anteriormente, e que não são aceitáveis num programa que diz ser imparcial. Não pomos em causa que a produção tenha trabalhado no sentido da neutralidade, mas se o fez o ecrã não o demonstrou em pleno. Há que ter muito cuidado com este tipo de situações, o público está atento!

A última consideração negativa vai para a realização de apenas três galas, numa decisão que nos fartámos de contestar, ou não fosse esta uma das fases que mais apreciamos no formato. A mecânica da competição, com 16 finalistas, impunha a existência de, pelo menos 4 galas. E além destas 4, uma quinta gala especial (aliada, por exemplo à iniciativa RTP+, tal como aconteceu em 2014) teria sido uma opção rentável - não nos esqueçamos do grande investimento feito no estúdio e na cenografia. Aparentemente esta não foi uma opção nem para a RTP nem para a produtora.

Nesta rubrica especial não podíamos deixar de referir o excelente trabalho de social media e de PR deste The Voice. A Keep it Real (que presta estes serviços à Shine) foi irrepreensível na produção de material para as várias plataformas sociais e na divulgação do formato junto da imprensa. Fotografias, vídeos, conteúdos personalizados e até directos; tudo foi feito com vista manter o público próximo do formato. E quanto à imprensa, o trabalho não foi menos competente; semana após semana, o The Voice fez-se representar em força nas várias publicações da área. Afinal, o sucesso de um programa também se mede por estas pequenas grandes coisas!

O THE VOICE E O SERVIÇO PÚBLICO

A estação pública fez uma boa gestão deste The Voice e soube usar todas as suas potencialidades. O formato não se circunscreveu às noites de domingo e serviu para alimentar o day time do canal, através da participação regular de concorrentes. Destacar, ainda, a forte presença do formato nas emissões especiais de Natal e fim-de-ano da RTP 1, "Missão Continente" e "Volta ao Mundo 2016", respectivamente.

Damos, contudo, nota negativa ao especial de seis horas emitido na tarde do dia de Natal. Um conceito interessante mas que ultrapassou por completo a barreira do exagero e do aceitável - para o efeito, uma emissão de duas horas teria sido o ideal.

A app interactiva desenvolvida para esta temporada do programa merece também uma reflexão. Numa altura em que a nova administração do operador público diz querer apostar nos novos segmentos de mercado, nomeadamente nas novas tecnologias, não deixa de ser irónico que não saibam usar o que de melhor a estação já tinha. Recorda-se do 5i RTP, apresentado com pompa e circunstância em 2014? Este foi um projecto com direcção do Ricardo Tomé (agora na Media Capital), projectado para se estender aos muitos programas da estação, mas que parece ter morrido na praia.

Este desinvestimento tecnológico fez-se notar nesta nova aplicação do The Voice, que em comparação com a de 2014 (essa, sim, integrada no sistema 5i) foi muitíssimo inferior. A isto, acresce o facto de a mesma ter surgido duas semanas depois do programa ter arrancado, o que reforça ainda mais este desleixo.

Com uma nova temporada anunciada para este ano, seria interessante assistir a uma reformulação total da aplicação. E porque não revitalizar o obsoleto sistema de votação condenado aos 760? Porque não aliar a votação por telefone à votação via app (como aliás se faz lá fora)? Inovar faz ou não parte do serviço público de televisão? Fica a dica para os decisores da Avenida Marechal Gomes da Costa!

UM FUTURO PROMISSOR

Inovação, emoção, espectáculo e muito talento é o que se espera na quarta temporada do The Voice Portugal. O formato tem todas as condições para continuar a ser aposta da RTP e, audiências à parte, a estação pública só tem que se orgulhar por poder ter um formato desta qualidade na sua grelha.

O regresso está marcado para a rentrée televisiva, a altura ideal para qualquer programa estrear no pequeno ecrã. Depois de algum descanso, o The Voice vai voltar a fazer parte das noites de domingo, fazendo certamente as delícias dos muitos espectadores do formato que até lá vão ganhar saudades.

O bom ou mau casting que for feito será determinante para o sucesso da nova temporada, mas tendo em conta o trabalho desenvolvido nas últimas edições, só se espera o melhor. O importante é que todos - concorrentes, apresentadores, mentores e produção - se saibam sempre reinventar. Nós cá estaremos para analisar!

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