domingo, 28 de fevereiro de 2016

ÓSCARES 2016: 45 YEARS | Smoke gets in your eyes


Há algo de especial na ideia de uma união envelhecida, sobrevivente às vicissitudes da vida. Talvez por isso, ainda antes de ver o filme, já simpatizava com a Kate e com o Geoff, um casal britânico, sem filhos, a uma semana de celebrarem o 45.º aniversário de casamento. A culpa é do número que aparenta uma enormidade que não cabe na minha inexperiente compreensão.

O filme abre com Kate a passear o cão, pela manhã, já no regresso a casa, numa pacata zona rural, em Nortfolk. Andrew Haigh, através de Kate, convida-nos a entrar na vida deste casal, focando pequenos movimentos rotineiros, como despir o casaco e o cachecol, pendurá-los no cabide na entrada, trocar o calçado, passar os olhos pelo correio. Há uma sensação de naturalidade pendente no ar, que perdurará, adequadamente, até ao final.

Entramos na cozinha e encontramos, pela primeira vez, Geoff, sentado à mesa a ler uma carta atentamente. Kate aproxima-se e inquire sobre o destinatário, espreitando o conteúdo que não entende porque está em alemão. Não há nada de invasivo nesta acção. Ele explica que é uma carta das autoridades suíças a informar que tinha sido encontrado o corpo de uma velha namorada, Katya, nos Alpes Suíços, onde morrera décadas antes num trágico acidente, caindo numa fissura no gelo. Geoff pergunta-lhe se ela se recorda porque está certo de lhe ter dito. Sim, ela recorda-se. E ouve, numa atitude de aparente compreensão. Mas há algo de errado. Sabemos ali que existem dois tipos de fissuras igualmente gravosas: as que se manifestam na terra e as que se rasgam entre pessoas.

Retomam os seus afazeres. Kate vai até à cidade para ultimar pormenores para a celebração do 45.º aniversário, e Geoff tenta consertar um lavatório, sem sucesso, acabando por retomar uma obra de Kierkegaard, que nunca conseguiu avançar além dos primeiros capítulos. A memória do solitário filósofo dinamarquês, que muito reflectiu sobre a existência, a angústia e o desespero, é, em certa medida, um mau prenúncio. Ele está distraído e não consegue escondê-lo. Mais do que distraído, escolhe regressar a um tempo que Kate não conheceu, e não tem percepção da sua própria postura de insensibilidade ao discorrer sonhadoramente, como se ainda tivesse 20 anos, sobre a viagem pelos Alpes.

A inquietude que se instalou subtilmente naquele lar, outrora acolhedor, agrava-se quando Geoff explica, muito honestamente, porque lhe foi a carta endereçada a ele. Kate fica visivelmente perturbada mas quando dançam ao som da Stager Lee, num momento de alegria pura, especialmente para nós espectadores, e vão para a cama, parecemos esquecer tudo o que diz respeito a Katya. Ingenuidade da nossa parte, e da deles. Ainda nessa noite, Geoff sobe pela primeira vez, mas não a última, ao sótão e abre formalmente a caixa de Pandora há muito ali enterrada. Kate acabará por não resistir e ela própria fará a sua expedição.

Dizem que entre uma verdade dura e uma mentira reconfortante, deve-se sempre optar pela primeira. O que nem sempre dizem que é esta, além de não ser de fácil digestão, pode não levar a lado algum. Kate não quer voltar a falar de Katya mas já não é uma questão de querer. Falando ou não, Katya, morta há 50 anos, está tão presente naquela casa como se fosse um deles. Provavelmente, esteve sempre lá, mas Kate só a conheceu plenamente agora. Há que salutar a capacidade habilidosa de Andrew Haigh em dar vida a uma pessoa que nunca chega a ser corpórea.

No dia da comemoração do aniversário, ele acorda-a e procura mimá-la, numa tentativa de a assegurar que está tudo bem. A festa está repleta de amigos, num ambiente de viva animação, e quando Geoff tem a oportunidade de discursar, professa o seu amor e a certeza da sua escolha, terminando em lágrimas. Repetem a primeira dança do casamento, ao som de Smoke Gets In Your Eyes dos Platters. Quanta ironia: "Yet today, my love has flown away / I am without love / Now laughing friends deride / Tears I cannot hide / So I smile and say / When a lovely flame dies / Smoke gets in your eyes".

O final é magistral. Um close-up à expressão devastada de Kate, com a sala a escurecer, no meio de um barulho ensurdecedor. Avivou-me, de imediato, a memória de outro final de um filme muito diferente, Late Autumn, com a lendária Setsuko Hara a exibir uma expressão igualmente inesquecível. Não esquecerei esta Charlotte Rampling, irrepreensível do primeiro ao último momento, acompanhada de um Tom Courtenay, igualmente irrepreensível. O filme não teria resultado de outra forma.

45 ANOS
45 Years (título original)
País: Reino Unido
Género: drama, romance
Duração: 95 min
Realização: Andrew Haigh
Produção: Tristan Goligher
Argumento: Andrew Haigh
Elenco: Charlotte Rampling, Tom Courtenay

0 comentários:

Enviar um comentário