domingo, 21 de fevereiro de 2016

ÓSCARES 2016: THE BIG SHORT | A Má Aposta


Estivéssemos numa corrida de cavalos e este The Big Short fosse um dos cavalos em competição, seria certamente um dos maiores depositários de apostas. Por um lado, aborda um tema sensível, especialmente (mas não só) no contexto norte-americano, que ainda carece de compreensão, o colapso do mercado imobiliário que despertou a crise financeira que se alastrou ao resto do mundo. Por outro lado, um elenco forte, sólido e atractivo: Christian Bale, Brad Pitt, Steve Carell e Ryan Gosling.

O filme narra a história verídica de quatro indivíduos que, em 2005, viram aquilo que mais ninguém era capaz de imaginar nem nos piores sonhos: a bolha do mercado imobiliário, "no one can see a bubble. That’s what makes it a bubble". Desta forma, anteciparam as repercussões desastrosas que viriam a suceder e lucraram com a situação. Convém deixar bem claro que não estamos a falar de justiceiros morais mas sim homens que querem exactamente o que todos querem, especialmente aqueles que trabalham em alta finança, mas vão consegui-lo apostando contra o sistema. Todos eles correspondem, de uma forma ou outra, aos estereótipos mais generalizados: Michael Burry (Christian Bale) é incapaz de se relacionar socialmente mas possui capacidades extraordinárias de leitura de números; Jared Vennett (Ryan Gosling), que narra o filme, é arrogante e oportunista; Mark Baum (Steve Carell) é um céptico, que odeia o sistema mas não consegue abandoná-lo, com bagagem emocional pesada recente; Ben Rickert (Brad Pitt) é, também, um desiludido com o sistema há muito retirado mas que aceita dar uma mão a dois jovens investidores, Charlie Geller (John Magaro) e Jamie Shipley (Finn Wittrock). 
A primeira parte do filme conduz-nos pelos diferentes processos que levam as personagens a encontrar o problema e a compreender como lucrar com ele. Numa lógica de glorificação dos vencedores, Ryan Gosling vai narrando, em jeito de voz-off, num permanente tom de cepticismo e presunção. A abordagem pretende ser engraçada e clarificadora. Nada contra a clarificação dos conceitos, pelo contrário, é muito bem-vinda. Como o próprio Gosling narra, existem nomes muito complicados para coisas muito simples, de forma a não serem tão facilmente apreendidas pelo público geral. Agora, quando o engraçado se torna "engraçadinho" cansa, e muito. A junção de trejeitos para a câmara multiplicados ao infinito, as montagens de fotografias que parecem saídas do movie maker, a selecção musical aleatória, as "epígrafes" que dividem partes do filme, o recurso a celebridades, e até a própria narração, além de parecerem deslocar o acção do tempo em que ocorre, evidenciam um certo exercício visual experimental e hiperactivo. 

Em retrospectiva pode ser uma fórmula vencedora. O efeito hipnótico e tranquilizante a que nos submete expõe um sistema fraudulento e perverso, onde as consequências não são medidas desde que os bolsos se continuem a encher, e nem damos por ela. Ben Rickert desperta-nos do entorpecimento quando repreende os jovens investidores por festejarem efusivamente: "If we’re right, people lose homes. People lose jobs. People lose retirement savings, people lose pensions. You know what I hate about fucking banking? It reduces people to numbers. Here’s a number – every 1% unemployment goes up, 40 000 people die, did you know that?"

O filme muda de ritmo. Pelo que escrevi até agora pode parecer que era exactamente o que queria, mas não era porque não resulta. Especialmente através de Mark Baum somos recordados das consequências devastadoras da crise e já nada nos parece "engraçadinho". Infelizmente, esta mudança afigura-se algo desequilibrada porque depois da primeira parte também nós somos cépticos e não acreditamos nesta recém-encontrada moralidade. Confesso ter agradecido o regresso da voz de Ryan Gosling, que no tom a que nos habituou anteriormente, conclui o filme. 

The Big Short, a meu ver, peca na execução. A temática é, realmente, relevante, e merece ser tratada, não só pela função social que o cinema pode exercer, mas também porque este tem a capacidade de esmiuçar assuntos que nem sempre são de fácil percepção, tornando-os claros. Os actores fizeram exactamente o que tinham a fazer. Não obstante, no final, não passa de uma má aposta. É um exercício de aparência experimental e desequilibrado, que segue uma lógica exibicionista e hiperactiva. Se calhar, mais uma vez em retrospectiva, cumpre exactamente os objectivos a que se propõe, ao passar uma imagem altamente perversa do sistema e dos acontecimentos, que nada mais é além de realidade. É natural que não apreciemos. "Truth is like poetry. And most people fucking hate poetry"

A QUEDA DE WALL STREET
The Big Short (título original)
País: EUA
Género: comédia, drama, biografia
Duração: 130 min
Realização: Adam McKay
Produção: Dede Gardner, Jeremy Kleiner, Arnon Milchan, Brad Pitt
Argumento: Adam McKay, Charles Randolph
Elenco: Christian Bale, Steve Carell, Ryan Gosling, Brad Pitt, John Magaro, Finn Wittrock

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