sábado, 20 de fevereiro de 2016

ÓSCARES 2016: BRIDGE OF SPIES | A Standing Man


1957. Estamos em plena guerra fria. As crianças aprendem nas escolas autênticas alarvidades sobre auto-defesa em caso de ataque nuclear. O governo norte-americano conduz investigações para encontrar inimigos à causa ocidental, espiões soviéticos, mesmo entre cidadãos. Poucos anos antes, o mundo tinha assistido à execução do casal Rosenberg, acusado de passar informações à União Soviética sobre a bomba atómica; uma sentença altamente polémica. O inimigo pode estar em qualquer lado e o pânico está silenciosamente instalado.

É neste contexto que Jim Donovan, advogado de seguros, é chamado a defender um espião russo recentemente capturado. Defender é, neste caso, sinónimo de conivência com o veredicto já decidido. A sua presença é necessária somente para se cumpram todos os trâmites legais. Se Donovan fosse o tipo de homem que alinhasse simplesmente no esquema nem sequer haveria filme porque a própria história não o recordaria. Em certa medida este advogado lembra-me outro, Atticus Finch, que em 1960 nos ensinou o significado de verdadeira coragem. "It’s when you know you’re licked before you begin, but you begin anyway and see it through no matter what".

No romance de Harper Lee a questão central é o problema racial, que ainda hoje permanece bem vivo na sociedade norte-americana, e em nada se relaciona com a guerra fria. No entanto, Jim Donovan e Atticus Finch partilham a mesma essência e movem-se pela mesma coisa: o dever de fazer o que é certo. Não fosse assim, Donovan não teria servido o seu cliente, condenado em praça pública, ao máximo das suas capacidades. Aliás, vai mais longe. Não hesita em apelar mais do que uma vez aos tribunais para evitar a sentença de pena de morte, apesar da pressão pública e das ameaças não só à sua segurança como à segurança da sua família. Vale-lhe a lembrança ao juiz de que, em tempo de guerra, poderia vir a surgir a oportunidade de efectuar uma troca entre este espião e um espião norte-americano capturado pelos russos. Uma certa dose de profetismo nunca cai mal neste tipo de thriller.
Não obstante, é redutor afirmar que a motivação de Jim Donovan se deve inteiramente ao sentido de dever. O advogado não consegue evitar uma profunda simpatia para com o espião, Rudolf Abel, que nada mais revela do que uma completa cordialidade e compreensão perante toda a situação: "Aren’t you worried?", "Would it help?". Não só simpatia, também reconhecimento. Reconhecem um no outro aquilo que os une, o facto de ambos seguirem ordens e de possuírem a capacidade olhar as situações de cima e ver mais além, fugindo aos detalhes insignificantes que obscurecem a visão. Apesar de se situarem em campos opostos, formam uma relação de admiração que se manterá até ao fim.

Quando o espião norte-americano Francis Gary Powers é capturado pelas forças soviéticas surge a oportunidade de troca adivinhada por Donovan. Caberá, também a ele, mediar a troca, porque apesar do interesse de ambos os Governos, nenhum se quer comprometer. Essa mediação, e posterior troca, toma lugar no bloco de leste da Alemanha dividida. Para dificultar as negociações por si só certamente complicadas, entra na equação o estudante Frederic Pryor, capturado pela Stasi por suspeita de espionagem. Apesar do retrato algo infiel da sua prisão do ponto de vista histórico (nada de alarmante), é certo que Pryor teve a infelicidade de estar no lugar errado, à hora errada.

Donovan, na Alemanha de Leste, é um peixe fora de água. Encontra-se num local estranho, hostil e perigoso a qualquer americano. A ajuda da CIA de pouco lhe serve e só lhe resta agir com a máxima descrição e caução, confiando nos seus instintos para negociar as trocas, tanto com os soviéticos, como com os alemães de Leste. Ambas as partes clamam não terem nada a ver uma com a outra e pressionam a troca pelo prisioneiro que lhes interessa. A troca de Abel é efectuada, com sucesso, na Ponte de Glienicke, popularmente conhecida como Ponte dos Espiões, ao mesmo tempo que Pryor é libertado noutra localização.

Steven Spielberg não resiste a fechar um filme de um modo muito americano. Contudo, esses pequenos minutos são perdoáveis perante um filme francamente bom. Ao contrário do que temia, nomeadamente, uma acção mais pronunciada e fora do contexto, a narrativa desenrola-se, regularmente, num tom baixo, preenchido de tensão e adrenalina, entregues somente através de diálogo. O cuidado visual, especialmente nas cores que marcam a diferença entre a acção que tomou lugar nos EUA e a acção que aconteceu na Alemanha, é especialmente importante no reforço ao ambiente criado. E, claro, não poderia deixar de mencionar as tremendas interpretações tanto de Tom Hanks, enquanto Donovan, como de Mark Rylance, enquanto Abel, merecedoras de toda a atenção possível.
  
A PONTE DOS ESPIÕES
Bridge Of Spies (título original)
País: EUA
Género: biografia, drama, thriller
Duração: 141 min
Realização: Steven Spielberg
Produção: Steven Spielberg, Marc Platt, Kristie Macosko Krieger
Argumento: Matt Charman, Joel e Ethan Coen
Elenco: Tom Hanks, Mark Rylance, Amy Ryan, Alan Alda

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