sábado, 27 de fevereiro de 2016

ÓSCARES 2016: MAD MAX: FURY ROAD | Redenção Apocalíptica


"Where must we go, we who wander this wasteland, in search of our better selves". Wasteland é, sem dúvida, a palavras mais apropriada para descrever este universo apocalíptico que George Miller trouxe de volta aos ecrãs. Digo de volta porque Mad Max: Fury Road é o quarto filme do franchising Mad Max, protagonizado por Mel Gibson, muito popular nos anos 80. Não conheço os filmes anteriores, pelo que tinha algumas reticências a ver este sem fazê-lo (o que aconteceu), mas, acima de tudo, este não é exactamente o "tipo de filme" que opto por ver, pelo que adiei a sua visualização durante meses e, por pouco, passou ao lado. No entanto, este Mad Max é a prova de que a virtude pode ser encontrada da forma mais inesperada. 

De facto, não é necessário assistir a nenhum dos predecessores para entrarmos neste universo. Max, interpretado agora por Tom Hardy, apresenta-se às audiências. Sabemos, à partida, que vive numa "wasteland", num mundo "of fire and blood", é perseguido pelos fantasmas do passado, e que, por isso, foge tanto dos mortos como dos vivos. O seu único propósito é sobreviver. Infelizmente, não consegue escapar à captura dos "War Boys" e acabará por se tornar no "blood bag" de Nux (Nicholas Hoult), que necessita do sangue porque se encontra doente. 

Um universo apocalíptico que se preze não guarda semelhanças à realidade e tem a sua própria linguagem. Neste mundo, a água e a gasolina são bens escassos, por isso qualquer maluquinho que consiga o monopólio destes recursos é rei. O maluquinho é Immortan Joe (Hugh Keays-Byrne), que habita na Citadel, e tem à sua disposição um exército de "War Boys". 


Immortan Joe envia Imperator Furiosa (Charlize Theron, no "War Rig", para recolher gasolina. Furiosa, que não é uma subordinada fiel de Joe, desvia-se da rota. É então que este percebe que, com ela, foram também as cinco mulheres, especialmente seleccionadas para efeitos de procriação. Joe conduz todo o exército atrás delas e chama reforços das cidades "Gas Town" e “Bullet Farm”. Um dos "War Boys" que seguem Joe é Nux - "If I’m going to die, I’ going to die historic, on the fury road!" – que não tem outra alternativa senão levar Max. 


É desta forma que Max acaba envolvido na perseguição e se aliará, eventualmente, a Furiosa, que tem como objectivo regressar a casa, ao sítio onde tinha sido sequestrada quando criança, "Green Place", e com ela levar também as cinco mulheres, que deixam bem claro que fogem porque não são coisas. No decorrer de todo o processo, Nux acabará também a bordo do "War Rig" de Furiosa, que depois de desiludir Joe, e não aguentar essa tamanha desilusão, acaba por descobrir uma réstia de afecto com uma das mulheres, que o leva a mudar de lado. 

O "Green Place" já não existe mas encontram umas mulheres que Furiosa reconhece. Também elas são sobreviventes e, uma delas, guarda sementes que tenta fazer crescer, sem sucesso, por onde passa. As mulheres planeiam viajar à procura de uma nova casa e convidam Max a juntar-se-lhes. Este recusa. Contudo, depois de uma visão do filho que não conseguiu salvar, é o próprio a parar as mulheres e a convence-las a regressarem à Citadel, que agora não está guardada, onde existe água e, por isso, esperança. 

Geograficamente, a acção é claramente definida. Tudo acontece em menos de dois dias, na "Fury Road". A maior parte do filme consiste numa perseguição furiosa, selvática e insana, colorida a vermelho, como o fogo. A insanidade pode bem ser a única regra concebível neste universo. "What a lovely day" exulta Nux, no meio da perseguição. Os efeitos especiais são brilhantes, há que dizê-lo. A banda sonora é aparatosa e excessiva, mas encaixa que nem uma luva. Dentro deste universo não há nada que não pareça credível. Só nos resta acompanhar, quase sem espaço para respirar, mas acompanhar sempre.

Max convence Furiosa a regressar à Citadel com as seguintes palavras: "At least that way, we might be able to... together… come across come kind of redemption". A redenção é um termo bíblico, que invoca a crença na libertação do Homem através do sacrifício de Cristo. A religião pouco interessa neste universo caótico mas a libertação importa muito. É a única razão pela qual Furiosa abandona, em primeiro lugar, a Citadel, com as mulheres, em busca de uma casa e de um sítio para um futuro, e é a razão pela qual aceita regressar. Mas, na verdadeira acepção da palavra, é provavelmente Nux, que independentemente do lado, não se importa de ser o sacrifício, ainda que busque o reconhecimento, "Witness Me". Um desejo de moribundo, é certo. 

Embora Max figure no título do filme, é inegável que a força feminina, especialmente (mas não só), na pessoa de Furiosa, é preponderante. Há qualquer coisa profundamente triste no olhar que Furiosa nos oferece. Pouco lhe conhecemos do passado, da relação com o Immortan Joe, da forma como perdeu parte do braço, mas não deixamos de perceber que se faz acompanhar permanentemente de feridas ainda abertas. Isso é mérito de Charlize Theron, que esteve indubitavelmente à altura do papel. Max, por outro lado, não nos parece ser louco, como alude o título, mas a forma como persegue a sobrevivência, faz-nos crer que faria qualquer coisa para não morrer. Pouco disto é mostrado em diálogos porque Max raramente fala, é essencialmente corporal. Mais uma interpretação brilhante de Tom Hardy a reter na memória. Nicholas Hoult é particularmente credível enquanto Nux, dando corpo a uma das personagens que certamente recordaremos sem dificuldade. 

Max, depois de trocar um olhar com Furiosa, desaparece na multidão anónima. Não sabemos para onde vai, não imaginamos o que o destino lhe reserva, mas sabemos que sobrevive. Espero reencontrá-lo em breve, ainda que saiba que ele se tentará evadir a esse encontro.

MAD MAX: ESTRADA DA FÚRIA
Mad Max: Fury Road (título original)
País: EUA, Austrália
Género: ficção científica, aventura, drama
Duração: 141 min
Realização: George Miller
Produção: Doug Mitchell, George Miller, P. J. Voeten
Argumento: George Miller, Brendan McCarthy, Nico Lathouris
Elenco: Tom Hardy, Charlize Theron, Nicholas Hoult, Hugh Keays-Byrne, Rosie Huntington-Whiteley, Riley Keough, Zoë Kravitz, Abbey Lee, Courtney Eaton

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