quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

ÓSCARES 2016: THE REVENANT | A Jornada Visceral de DiCaprio


Revenant significa alguém que regressa da morte ou de uma ausência prolongada. O "revenant" deste filme é Hugh Glass, um comerciante de peles e explorador, conhecido, principalmente, por ter sobrevivido, em 1823, não só ao ataque de um urso, como ao posterior abandono dos seus companheiros. Sobreviveu e procurou vingança. É uma história verídica, no mínimo, sensacional, que inspirou um livro de Michael Punke, com o mesmo nome, e o mais recente projecto de Iñarritu.

O filme abre, quase de imediato, com o ataque brutal de nativos americanos a um grupo de comerciantes de pele, liderados por Andrew Henry (Domhnall Gleeson). Procuram a filha sequestrada do líder da tribo. Alguns membros do grupo conseguem escapar num barco, mas a ameaça mantém-se. Entre estes membros encontramos Hugh Glass (Leonardo DiCaprio), que, curiosamente, tem um filho de descendência nativa, Hawk. Dada a experiência de Glass, Henry confia totalmente nos seus conselhos, e ordena o regresso à base, a pé, apesar da tempestade de neve que não parece querer melhorar. John Fitzgerald (Tom Hardy) discorda, não confia em Henry e muito menos em Glass.

A certa altura, quando mais afastado do grupo, Glass é atacada por um urso. Iñarritu já tinha indiciado, na sequência inicial, que ninguém seria poupado à violência, e mostra-nos todo o ataque, com uma crueldade evidente. Os nossos olhos não descolam do ecrã, apesar da violência crua e nua. Sobrevive, miraculosamente, mas não se espera que sobreviva à passagem das horas. Henry decide, dadas as difíceis condições climatéricas e o reduzido número do grupo, oferecer uma recompensa a três homens, que escolham ficar para trás de forma a proporcionar-lhe o máximo de conforto possível e um enterro apropriado. Os homens são Hawk, Fitzgerald e Bridger (Will Poulter). Evidentemente, Fizgerald, não tem qualquer interesse no destino de Glass. Acabará por matar Hawk, que o surpreende a tentar sufocar um imóvel mas consciente Glass. Depois mente a Bridger, alertando para um eminente ataque dos nativos, e Glass acaba enterrado vivo.

Ainda assim, Glass sobrevive e o filme começa, realmente, a partir deste momento, dando início a uma longa e tortuosa jornada de vingança. Não há nada de particularmente novo neste tipo de argumento mas Iñarritu inova ao proporcionar-nos uma verdadeira experiência sensorial.

O nome Emmanuel Lubezki já não é estranho, quanto mais não seja por ter levado para casa a estatueta dourada nos últimos dois anos, com Birdman e Gravity, e ameaça, aqui, levá-la também este ano. É indiscutível que The Revenant é um filme portador de uma beleza imensurável, quase poética, capaz de originar uma fotografia digna de moldura a cada frame. É tão belo nos momentos em que nos permite uma contemplação silenciosa e transcendente da natureza, que nos reduz à nossa pequenez, como nos momentos mais crus e viscerais, tome-se por exemplo o estraçalhamento do interior do próprio cavalo, como única forma de sobrevivência a mais uma noite.

The Revenant vai ainda mais longe ao apelar magistralmente aos nossos ouvidos, através da banda sonora de Ryuichi Sakamoto. Não o faz de forma conflituosa, não se pretende impor, mas faz-se notar. Temos a oportunidade de vivenciar a música em perfeita harmonia com os elementos visuais, que completam cada cena. A banda sonora é, aqui, mais um elemento da natureza.

Muito se tem discutido sobre a possibilidade de DiCaprio levar este ano, para casa, o Óscar que todos, de uma forma geral, julgamos ser merecido. Não quero entrar nessa discussão mas seria profano da minha parte ignorar o tremendo desempenho do actor no The Revanant, que tem de ser analisado em dois planos. O primeiro prende-se com as condições difíceis em que o filme foi gravado, que obrigaram a um esforço superior de DiCaprio, que sabemos nunca se ter desviado do seu propósito, exigindo sempre mais. Não precisávamos, no entanto, de testemunhos da equipa, de gravações, para ter conhecimento desse esforço porque sentimo-lo ao longo de todos os minutos do filme. Este é o segundo plano, a efectividade com que cumpre a encarnação de Hugh Glass, conduzindo-nos por uma experiência sobretudo sofrível, e não o digo como crítica negativa. Atente-se que não são muitas as vezes em que o ouvimos falar, mas lemos o sofrimento e a dureza da situação nos olhos e na forma como se tenta exprimir, sem sucesso, mas persevera, sempre. Não tem nada a perder e ouve na sua cabeça a voz da falecida mulher: "As long as you can still grab a breath, you fight. You breathe. Keep breathing. When there is a storm and you stand in front of a tree, if you look as its branches, you swear it will fall. But if you watch the trunk, you will see its stability"

As aparições frequentes da mulher pertencem a um plano místico e são a única parte do filme que não resulta verdadeiramente porque não parecem pertencer ao filme. Ainda que possa compreender o que motiva a evocação de elementos de um carácter mais espiritural, julgo serem desnecessários. Glass persevera, sobretudo, pela ideia de vingança, que o acompanha obsessivamente. Mas persevera, também, pelo instinto mais básico do ser humano, a sobrevivência. The Revenant é o relato dessa jornada visceral e instintiva, pelo que a exploração espiritual, algo incompleta, acaba por não se encaixar apropriadamente no puzzle. 

Perguntei-me, quase até aos últimos momentos, se Glass teria, de facto, regressado da morte, como ele próprio o afirma. Ele não parece viver, ou querer viver, somente sobreviver até atingir o seu propósito. O filme procura dar-nos essa resposta mas confesso não ter ficado totalmente satisfeita, ainda que no final as palavras e a as acções se encontrem. No final, restaram-me interrogações para as quais não encontrarei qualquer tipo de resposta. Contudo, vivo bem com esta sensação porque prefiro mil questões na cabeça, que me fazem recordar e reviver os filmes, do que a aborrecida clarividência absoluta.

O projecto de Iñarritu era ambicioso mas este correspondeu brilhantemente ao que se propôs, embora admita que uma menor duração não lhe tivesse tirado rigorosamente nada. Não posso terminar, no entanto, sem dirigir uma palavra de apreço a Tom Hardy, que assumiu, e bem, o vilão Fitzgerald, e a Domhnall Gleeson, apesar do papel menor. Encontrámo-lo várias vezes este ano (Star Wars, Brooklyn, e Ex-Machina), e nunca nos deixou mal, especialmente em Ex-Machina e no filme que motiva este palavreado todo. Tem sido uma caminhada ascendente notável, esperemos que não fique por aqui.

THE REVENANT: O RENASCIDO
The Revenant (título original)
País: EUA
Género: aventura, drama, thriller
Duração: 156 min
Realização: Alejandro G. Iñárritu
Produção: Arnon Milchan, Steve Golin, David Kanter, Alejandro G. Iñárritu, Mary Parent, James W. Skotchdopole, Keith Redmon
Argumento: Mark L. Smith, Alejandro G. Iñárritu
Elenco: Leonardo DiCaprio, Tom Hardy, Domhnall Gleeson, Will Poulter

0 comentários:

Enviar um comentário