quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

ÓSCARES 2016: ROOM | A Força de Sansão


Joy Newsome (Brie Larson) foi sequestrada com 17 anos, e mantida cativa num pequeno espaço que conhecemos como Room. Fruto de repetidas violações no decorrer dos anos, nasce Jack (Jacob Tremblay), que no início do filme celebra o 5.º aniversário. Joy, entretanto, já tem 24 anos.

Para Jack, o quarto onde se encontra em cativeiro é enorme, "goes in every direction, all the way to the end". O extraordinário é que aquele espaço exíguo também nos parece enorme quando o vemos através dos olhos de Jack e das suas interacções com Joy, a quem chama carinhosamente de "Ma". Jack não olha para o quarto como uma prisão porque Joy criou-lhe um universo completo, que satisfaz a sua existência infantil. O quarto é o mundo todo, a televisão não transmite nada que se assemelha à realidade, e da clarabóia conseguem ver o espaço. Para todos os efeitos, ele é uma criança feliz, com o dom maravilhoso de fazer as audiências felizes meramente por assistirem. Mas Joy decide que está, finalmente, na hora de abandonarem o espaço. Antes, sozinha, não o conseguira fazer mas com a ajuda de Jack arquitecta diferentes planos para escaparem a Old Nick. Jack não acredita na descrição da realidade que a mãe lhe oferece mas a ligação entre ambos é tão forte, como se ainda permanecessem unidos pelo cordão umbilical, que alinhará nos planos de Joy, ainda que contrafeito.

Na primeira vez que Jack olha para o céu, na sua imensidão, sustemos a respiração com ele. As possibilidades são infinitas e ele nem sequer o imagina. A adaptação à realidade não se avizinha nada fácil mas, com pequenos passos, acabará por se abrir ao mundo. Ele ainda é plástico, pequeno o suficiente para não sofrer danos irreversíveis e tornar-se numa criança tão normal como todas as outras. Na verdade, nem será assim tão complicado de imaginar, passadas somente 37 horas, o pequeno Jack afirma "when I was small, I only knew small things. But now I’m five, I know EVERYTHING".
Joy sente-se profundamente aliviada e feliz por estar novamente livre, e com a família, mas, ao contrário da caminhada ascendente de Jack, fará o percurso contrário. Ela conhece a realidade fora do quarto, num sentido abstracto, mas não está preparada para o facto de a sua realidade não ser exactamente a mesma de há sete anos atrás. Vemos o primeiro sinal quando fecha o álbum de fotos porque as amigas continuaram as suas vidas normais. A irritação cresce ao longo do tempo, dá lugar a alguma petulância, e a momentos prolongados de isolamento. A entrevista a um canal televisivo acabará por destrui-la. Jack descreve-nos a situação com a simplicidade já habitual: "there’s so much of "place" in the world. There’s less time because the time has to be spread extra thin over all the places, like butter. So all the persons say "Hurry up! Let's get going! Pick up the pace. Finish up now". Ma was in hurry to go "boing" up to Heaven, but she forgot me. Dumbo Ma! So the aliens threw her back down. CRASH! And broke her".

Eventualmente, conseguirão os dois despedir-se do quarto. No final, pelos olhos de Jack, este já não nos parece tão grande como outrora. O universo expandiu-se. Jack é a força motriz de Joy, do início ao fim, desde que decidem abandonar o quarto até ao momento em que Jack pede à avó que lhe corte o cabelo, onde se encontra a sua força, à semelhança de Sansão, porque é a mãe a precisar dessa força agora.

Não li a obra de Emma Donoghue, com o mesmo nome, que serve de base a este filme. Não obstante, julgo ser seguro afirmar que dada a natureza do tipo de cativeiro, poderíamos ter um filme totalmente diferente, com um carácter bem mais pesado, de verdadeiro horror. Lenny Abrahamson, contudo, dirige The Room com um intuito bem diferente, ao destacar os laços que unem uma mãe a um filho, e a resiliência, especialmente das crianças, em situações adversas. Este objectivo poderia ter ficado aquém das expectativas caso não tivesse no elenco Brie Larson e Jacob Tremblay. Não interessa quantas vezes nos podem ter dito ou possamos ter lido os maiores elogios a estes dois actores. Saber que encontraremos duas prestações de qualidade não nos prepara, verdadeiramente, para o que encontramos depois. A genuinidade, a autenticidade e a convicção dos papéis que desempenham fazem mais do que cativar, mesmerizam. Ainda que me encontre, agora, expectante relativamente ao futuro de ambos, é em Tremblay que deposito maiores expectativas. Ainda não completou os dez anos e já nos presenteou com aquele que poderá ser um dos maiores papéis da sua carreira.

QUARTO
Room (título original)
País: Canadá, Irlanda
Género: drama
Duração: 117 min
Realização: Lenny Abrahamson
Produção: Ed Guiney, David Gross
Argumento: Emma Donoghue
Elenco: Brie Larson, Jacob Tremblay, Joan Allen, Sean Bridgers, William H. Macy

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