terça-feira, 15 de março de 2016

OLHAR A 7ª ARTE | Masaan, um caminho de libertação


Encontrei, por mero mas feliz acaso, a sinopse do filme indiano Masaan, de 2015, que me despertou a atenção devido à menção ao rio Ganges, à qual associei a cidade de Varanasi ou Benares, conhecida localmente como Kashi. Ocorreram-me, de imediato, dois livros que descobri não há muito tempo, ambos de autores japoneses. 


Um deles é o O Templo da Aurora, terceiro livro da tetralogia O mar da fertilidade, do escritor Yukio Mishima. A tetralogia acompanha as diferentes fases da vida de Honda, tendo como fio condutor a busca pelo amigo de adolescência, que morre aos vinte anos de idade, no primeiro livro, mas que este suspeita reencarnar sucessivamente, embora o próprio tenha dificuldade em aceitar a ideia de reencarnação. O terceiro livro leva-nos, no início, até à Tailândia, mas surge a oportunidade de uma breve visita à Índia, que lhe interessa porque o budismo nasceu no nordeste indiano. Um dos locais por onde passa, antes de regressar ao Japão, é Benares. O outro livro é o Rio Profundo, do escritor Shusaku Endo, cuja acção acompanha um grupo de turistas japoneses a visitar Benares, focando-se em determinadas personagens envolvidas em diferentes viagens de cariz espiritual. No fundo, todos procuram uma resolução definitiva. 

O Ganges, assim como a cidade Benares, é um rio sagrado para o hinduísmo. Mais do que um rio é uma divindade purificadora, que traz milhares de peregrinos às suas margens. Alguns hindus acreditam, até, que a vida não é completa sem um mergulho no Ganges. As margens do rio são divididas por gaths, locais onde se ora, onde se tomam banhos no rio e onde se queimam os mortos. Tradicionalmente, os mortos são colocados numa maca, enrolados num tecido e levados para a beira do rio para um último banho. Depois, o corpo é colocado em cima das piras e arde durante três horas. No final, as cinzas são entregues ao Ganges, para que a alma seja libertada sem os pecados e faltas que caracterizam a vida terrena. 

Uma das personagens de Endo, Mitsuko, não acredita em nada e descobre-se incapaz de amar. No entanto, procura encontrar alguma coisa na Índia (ainda que não consiga precisar o quê), especialmente se se conseguir encontrar com um velho colega de faculdade, um católico severo (pelo menos de acordo com as suas lembranças), que ouviu dizer que se ocupa, actualmente, a carregar os corpos mortos até às margem do rio. É pelo hinduísmo que se sentirá atraída, pela dicotomia entre a ideia de sagrado e a crueldade dos deuses hindus que se ramifica pela sociedade. Benares torna-se, para ela, uma cidade sagrada pela decadência, fealdade e imundice, que descobre serem bonitas, e onde encontra uma qualquer espécie de significado. 

A abertura do filme é dura e cruel, especialmente à luz da visão ocidentalizada que felizmente me condiciona. Devi, uma jovem rapariga, encontra-se num quarto de hotel com Piyush. Fazem-no secretamente, na medida do possível, mas a cautela acaba por não ser suficiente quando são surpreendidos por um conjunto de polícias que guardam corruptamente pela moral e pelos bons costumes. O rapaz acaba por se suicidar trancado na casa-de-banho e Devi é gravada na cama, com o auxílio de um telemóvel. Os escândalos sexuais na Índia não são brincadeira e, mediante esse paradigma, o polícia chantageia Devi e o pai a pagarem determinada quantia, de modo a que Devi não fosse acusada judicialmente de instigação ao suicídio. O pai, Vidyadar, que conhecemos pela primeira vez como um homem bem-disposto, destroçado pelos acontecimentos que não consegue compreender (Devi quis encontrar-se com o rapaz por simples curiosidade), acabará por recorrer a métodos que negou até então, permitindo que uma criança órfã, que trabalha para ele e de quem gosta, mergulhe no rio à procura de moedas, apostando monetariamente no seu sucesso. 

Entretanto, e por oposição a este sofrimento, assistimos ao início de um romance entre Deepak, finalista de engenharia civil, e Shaalu. São momentos doces, entremeados por poesia e música, que parecem pertencer ao mundo dos sonhos. O que os separa é o sistema de castas. Enquanto Shaalu é de uma casta superior, Deepak nasceu no seio de uma família que trabalha num ghaat de cremação, de acordo com os rituais hindus. Quando não está a estudar, ou com amigos, ajuda a família. Não será a estratificação social a separá-los mas inevitabilidade da vida. 

A lente de Ghaywan é, sobretudo, honesta. Não é necessariamente bonita, no sentido mais ordinário da palavra, o que me fez recordar Mitsuko, a quem Endo deu vida com as suas palavras. As imagens dos corpos a arder não são sacralizadas. São sim exemplificativas do negócio e focam o vaivém daqueles que queimam os corpos, desde o ir buscar a lenha, ao atear das fogueiras e à colocação dos corpos nas piras, para que fogo os vá engolindo. Não ouvimos as orações (puja), e pouco espaço há para as famílias. Vislumbramos somente o desespero de um pai acompanhado por um diálogo onde este é incitado a esmagar o crânio do filho com mais força, para que alma se liberte mais depressa, e a surpresa da morte a ser sentida em silêncio no meio da azáfama. 

O antyesti (rituais da morte hindus) tem como objectivo a libertação dos mortos, mas esta ideia, em jeito de antítese, serve como pano de fundo ao sofrimento que consome as diferentes personagens. Também elas ardem, incessantemente, sem alívio. Um corpo demora três horas a carbonizar e o filme faz-nos sentir esse processo vagaroso e prolongado através das suas personagens. Queremos alguma espécie de conforto e a realizadora acabará por responder à nossa necessidade, de uma forma até comum ou mesmo cliché, mas fundamental e bem-vinda. Este conforto remeteu-me para a obra de Yukio Mishima. Não a ideia de reencarnação em si mas uma certa noção cíclica que o conceito abarca. Nenhum dos protagonistas tem esse conhecimento mas o alívio que sentem nos últimos minutos faz parte de um ciclo que os liga, subtilmente e imperceptivelmente, no momento exacto. 

No final, Benares é uma cidade bonita, em toda a sua fealdade. A beleza está em todo o lado, assim como a possibilidade de mudança.


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