terça-feira, 29 de março de 2016

OLHAR A 7ª ARTE | My unhappy, oh, little girl, little girl blue


No final do documentário Janis Joplin: Little Girl Blue, de Amy Berg, fica a ideia de que, acima de tudo, Janis Joplin foi uma menina triste. Uma tristeza que não deriva da trágica imagem associada à sua morte, numa fase ainda não prematura da vida, mas da procura incessante de aceitação e amor, que nunca verdadeiramente encontrou.


O próprio documentário não se agarra à negatividade latente à questão do consumo de droga ou da bebida, ainda que não ignore porque tal, além de não recomendado, não seria possível. Procura, sim, uma abordagem completa e abrangente, compatível à própria complexidade interior de Janis Joplin. Na minha opinião, que pouco ou nada interessa alguém, o documentário expõe, com sucesso, o paradoxo da cantora que afirmou "On stage, I make love to 25000 people. Then I go home alone".

Amy Berg teve a sorte de contar, não só com o apoio dos irmãos da cantora, responsáveis pelo seu legado, mas também com um conjunto de cartas pessoais endereçadas à família e a amigos, ainda pouco conhecidas do público geral (algumas estão publicadas num livro de Laura Joplin e foram também usadas na peça da Broadway A Night with Janis Joplin). Não há nada de particularmente chocante no seu conteúdo, que coloque em causa a sua imagem duradoura, mas realçam a sua personalidade insegura e faminta por aprovação, que não conseguimos imaginar quando revemos espectáculos ou ouvimos a sua música, e nos lembramos da sua imagem exuberante, feroz e, aparentemente, indiferente à opinião do mundo.

Através de relatos dos irmãos, de amigos e membros de banda e ex-namorados e namoradas, o documentário segue a infância de Joplin e a sua ascensão profissional, desde a chegada a São Francisco, a fazer parte dos The Big Brother and the Holding Company, ao ponto de viragem em Montrey e à sua carreira a solo. Há o óbvio e indispensável elogio ao talento de Janis Joplin: a voz original, a honestidade emocional, a crueza, a paixão e autenticidade que explodiam sempre que cantava. Sobre o que pensava quando cantava: "I’m not really thinking much, just sort of, trying to feel".

Pouco antes de abandonar os The Big Brother and the Holding Company, no final dos anos 60, a revista Time afirmou que Joplin foi "probably the most powerful singer to emerge from the white rock movement" e na Vogue Richard Goldstein escreveu que Joplin foi "the most staggering leading woman in rock... she slinks like tar, scowls like war… clutching the knees of a final stanza, begging it not to leave… Janis Joplin can sing the chic off any listener".

Enquanto tudo isto é verdade, é indiscutível a influência de grandes nomes dos blues como Odetta, Bessie Smith, Billie Holiday, Aretha Franklin, que Janis Joplin não se limitava a admirar, emulava. Os blues, originalmente a música que chorava os lamentos dos escravos negros, e por isso associada à tristeza, sempre ressoaram no interior da cantora, talvez porque ela própria os personificava, à sua maneira.

Joplin nunca escondeu o seu desamor por Port Arthur, a pequena cidade do Texas onde nasceu, demasiado pequena para alguém que aceitava o mundo por inteiro, como ele era, e não como diziam que era. O contributo da irmã Laura, no documentário, é particularmente interessante, não tanto quando relembra que a irmã foi expulsa da coro da Igreja ou o bullying que suportou durante anos por defender valores como a integração negra, mas ao dar-nos a conhecer a faceta que admirava as raparigas que via nas revistas (facto reforçado pelos desenhos de Joplin a que Berg teve acesso) e a frustração que sentia por não se assemelhar a elas.

Há um momento particularmente interessante no documentário, já próximo do final, onde os jornalistas acompanham Janis Joplin no regresso a Port Arthur para o encontro de 10 anos de alunos do secundário. A grande maioria das imagens recolhidas para o documentário mostram-nos uma Janis Joplin que ri, com e por gosto, mas naquele momento ri contrafeita, em dor, não conseguindo evadir as perguntas obviamente incomodativas.

As cartas, lidas pela cantora Cat Power, são o elemento que permitem completar a sua faceta insegura, especialmente quando Joplin define ambição como o desejo de ser amada por muitos. Ela foi uma artista dedicada e que trabalhou incansavelmente para ser melhor. Não obstante, nunca teve a certeza dos passos que deu e não foram poucas as vezes em que se lamentou e pediu desculpa à família. Os relacionamentos pessoais, particularmente com os homens, nunca deram em nada e sempre se perguntou no final dos ensaios porque era a única pessoa a ir para casa sozinha.

Estranhei a voz de Cat Power na narração porque não conseguia encontrar aquele timbre original e despreocupado. Primeiro, pensei que não resultava mas no final julguei ser uma boa escolha. A voz de Cat Power é, aqui, uma voz de menina. A menina que Janis Joplin nunca deixou de ser, apesar de ser uma das figuras maiores do rock dos anos 60 e propulsora do verdadeiro movimento feminista, sem sequer o ter alguma vez pensado.

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