terça-feira, 22 de março de 2016

OLHAR A 7ª ARTE | O diário de quatro irmãs em Kamakura


Baseado na manga Umimachi Diary, de Akimi Yoshida, Our Little Sister conta a história de três irmãs que decidem acolher a meia-irmã de 14 anos.

Sachi (Haruka Ayase), de 29 anos, Yoshino (Masami Nagasawa), de 22 anos e Chika (Kaho), de 19 anos, vivem juntas na casa que herdaram da avó, que dizem ser uma espécie de dormitório para raparigas. O pai abandonou-as, quando eram mais novas, para viver com outra mulher e a mãe acabou por fazer o mesmo. O filme abre com a recepção da morte do pai, notícia que comentam levianamente dado não saberem nada do pai há quinze anos. Não obstante, assumem naturalmente que devem estar presentes, ou melhor, Sachi assume, como cabeça da família, a mais responsável e a força motriz daquela casa. Embora a própria não possa ir, aparentemente por razões profissionais, vão as duas irmãs mais novas. Mais tarde, Sachi acabará por se lhes juntar.

No funeral conhecem Suzu Asano (Suzu Hirose), filha do mesmo pai e da mulher por quem foram abandonadas. Quase num impulso, Sachi convida-a a viver com elas, em Kamakura, percebendo, em poucos minutos de observação, que se ficasse com a madrasta (terceira mulher) seria negligenciada. Num plano ainda mais interior acaba por se rever em Suzu, abandonada pelos pais (ainda que no seu caso, pela morte de ambos) e em vias de ter a adolescência roubada. Suzu aceita, compreendendo que poderá haver espaço para ela junto das irmãs, e a vida das quatro prossegue.


Sachi e Suzu, apesar dos anos que as separam, e até precisamente devido a essa distância, têm em comum o facto de serem aquelas que mais memórias guardam do pai. A questão que se impõe, neste caso, é a seguinte: guardam o mesmo tipo de memórias? Além de que, e não é necessário ver filme para desenvolver esta dedução, sendo Suzu filha da mulher que lhes destruiu a família, outras emoções podem, eventualmente, vir a submergir.

Estão reunidas as condições para um grande melodrama familiar que felizmente nunca ocorre porque Hirokazu Koreeda é o realizador do filme. Muito dentro de um certo espírito que aparenta ter herdado de Yasujiro Ozu, não reserva espaço para o sentimentalismo exacerbado, para o drama, gritos, discussões e reconciliações tão rápidas quanto plásticas, que tão frequentemente encontramos em filmes "hollywoodescos".

Um dos grandes méritos de Koreeda é o tempo, sempre pausado e nunca corrido. A câmara sabe respirar e não cai, nunca, na tentação de se apressar perdendo o fôlego. Deixa-se prolongar e perdura. Este respeito pelo tempo, que tanto me atrai, é a razão pela qual este pode não ser um filme facilmente apreciado por públicos mais impacientes.

O horizonte temporal aqui abarcado é relativamente longo. Não o sabemos porque as personagens o pregam a quatro ventos ou porque somos relembrados por legendas que nos avisam que a acção vai continuar não sei quanto tempo depois. Sabemo-lo porque a fotografia é cuidada, ao mínimo detalhe: as folhas ficam laranjas, a estação de chuvas chega, as cerejeiras florescem em todo o seu esplendor. Sabemo-lo porque os acontecimentos sucedem-se: o tempo avança o suficiente para a apanha de ume, o umeshu está no ponto de consumpção, os memoriais acontecem, chega a hora de sacudir o pó aos yukatas para se assistir ao lançamento dos fogo-de-artifício, lojas há muito abertas fecham, as pessoas morrem.

É caso para pensar o que acontece às quatro irmãs nesta sucessão tão maravilhosamente banal da vida. Na verdade, acontece muito, mas imperceptivelmente, sendo este outro dos grandes méritos de Koreeda: a habilidade para se entranhar sem pedir licença mas sem invadir. Não existem momentos clímax, onde todas as emoções culminam, mas o filme continua a ressoar muito depois de o termos visto.

A temática central é o sentimento de pertença. Suzu quer pertencer a algum lado, quer uma casa. As irmãs agarram-se à casa herdada e às tradições e posses da primeira geração (avós), não só como forma de recordação mas porque necessitam de raízes. Um dos grandes veículos que dá luz a esta "busca" é a comida, que sabemos ser, desde o princípio dos tempos, um elemento socialmente agregador. O umeshu é um licor tradicional japonês, feito à base de ume, um fruto semelhante às nossas ameixas e pêssegos, pelo que consegui descobrir. Os frutos, apanhados ainda verdes, são mergulhados em açúcar e álcool e mantidos num local escuro e fechado, no mínimo, durante três meses, mas preferencialmente seis. Suzu quer ser parte desse processo, a partir do momento em que ouve as irmãs partilham histórias passadas, enquanto admiram a árvore. A sardinha tem um lugar especial na memória de Suzu e de Chika, por razões distintas. O caril é mais importante para Chika porque não se consegue recordar do único prato, à base de frutos do mar, que a mãe costumava confeccionar. Sachi traz um grande saco com fruta para casa depois de ter o coração partido.

Os seres humanos não são coloridos a preto e a branco. O conflito emocional, uma constante existencial inevitável, acontece tanto dentro de cada um como na interacção com os outros. Não acontece de um momento para o outro, vai acontecendo. Há feridas que o tempo sara, há outras que não, há coisas que se ganham, há coisas que se perdem, há coisas que se compreendem, outras nem tanto. No entanto, se nos agarrarmos àquilo que de melhor existe dentro de nós, a vida surpreende pela positiva. É a grande lição de Koreeda.

0 comentários:

Enviar um comentário