sexta-feira, 15 de abril de 2016

OLHAR A 7ª ARTE | A mais bonita anomalia


A animação é, infelizmente, um género frequentemente mal-interpretado, olhado com condescendência e preconceito. O erro parte, precisamente, de olharmos para a animação como um género, quando não o é, embora não seja alheia à necessidade de catalogação dos filmes. A animação é um meio de contar uma história, qualquer história, para novos e graúdos. Anomalisa, além de ser uma grande obra de cinema (provavelmente, um dos melhores filmes do último ano), é a prova de que ainda há muito para explorar e desenvolver através da animação.



O protagonista de Anomalisa é Michael Stone (David Thewlis), um escritor motivacional a entrar na meia-idade, de visita a Cincinnati para dar uma palestra. Seria de esperar que fosse um homem feliz e realizado, no entanto, é profundamente miserável e vive em total desconexão com o resto do mundo. O que o separa do mundo é tão enorme que Michael é incapaz de distinguir vozes. Desde o taxista que o conduz até ao hotel, até à própria família, com quem fala ao telemóvel, não há nenhum timbre diferente (todas as vozes são da autoria de Tom Noonan).

Até que, a dado momento, ouve uma voz que se distingue na multidão massificada. Procura-a desenfreadamente, batendo a todas as portas do corredor, e encontra-a na pessoa de Lisa (Jennifer Jason Leigh), uma telefonista que se encontra na cidade para assistir à palestra de Michael. Lisa possui uma auto-estima baixíssima, em muito derivado de uma cicatriz que procura esconder o melhor que pode com parte do cabelo, e, por isso, retrai-se num primeiro momento perante o interesse de Michael. Não o consegue compreender. Contudo, para Michael, ela é extraordinária. E quando canta Girls just want to have fun acontece, de facto, algo extraordinariamente bonito e singelo. Quando se envolvem sexualmente é, acima de tudo, enternecedor. Duas almas magoadas que ali se encontram e por momentos temos a ilusão que se curam.

Na verdade, não há cura. Michael agarra-se a Lisa como se esta fosse a única bóia de salvação que lhe resta mas, no dia seguinte, já nada é verdade, mais uma vez. A palestra desenrola-se de forma desastrosa, e Michael acaba a exprimir dúvidas existenciais, entre tentativas vagas e desconcentradas de se focar no assunto que o trouxe ali. Quando regressa a casa parece não reconhecer a família e depara-se com um conjunto de amigos que também não reconhece. Senta-se nas escadas, miserável, a olhar para uma boneca japonesa algo disfuncional, como ele.

Quando Lisa e Michael falam no quarto, há um momento em que Lisa confessa gostar da palavra anomalia porque sempre se sentiu uma. Michael chama-lhe, afectuosamente, Anomalisa, nome que acaba por titular o filme. Este filme é, ele próprio, uma anomalia. Incomum mas singular. A animação, em stop motion, aliada ao facto de todas as vozes, com excepção de Michael e Lisa, pertencerem à mesma pessoa, aumentam vertiginosamente a sensação de alienação do mundo de Michael, que nos perturba e nos incomoda. Anomalisa não é o filme indicado para quem deseja, simplesmente, passar duas horas ligeiras. É triste e alienado da nossa realidade cinéfila. Assim como Lisa, é também extraordinário, e sabemo-lo simplesmente, "Why?”, “I don’t know yet. It’s just obvious to me that you are".


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