quarta-feira, 6 de abril de 2016

OLHAR A 7ª ARTE | Meu nome agora é Zé Pequeno


Quem viu o filme Goodfellas não terá dificuldades em estabelecer alguns paralelos entre a obra de Scorcese e a Cidade de Deus, de Fernando Meirelles, nomeadamente em termos de narração e temáticas, ainda que adaptadas à realidade local de cada filme. A admissão das semelhanças, contudo, em nada diminui a Cidade de Deus, que construiu notavelmente o seu próprio espaço no mundo do cinema.

Em termos espaciais, a acção localiza-se no Rio de Janeiro, Brasil, mas nunca sentimos verdadeiramente que é a Cidade Maravilhosa porque a câmara não percorre as imagens dos postais turísticos que tão bem conhecemos. Ocupa-se, sim, da Cidade de Deus, uma favela que nada é mais do que um pequeno microcosmos no planeta mas que se nos afigura como um universo imenso.


O início do filme é algo inusitado mas não deixa de despertar a curiosidade dos espectadores: um conjunto de rapazes, de armas mão, a perseguir uma galinha. Nesta perseguição, Buscapé (Alexandre Rodrigues), o narrador da trama, é apanhado numa linha cruzada entre o gangue do Zé Pequeno (Leandro Firmino) e a polícia, e tem razões sérias para temer pela vida, que vão bem mais além deste momento. Afirma, então, a necessidade de voltarmos ao princípio e a câmara gira para trás e leva-nos para um jogo de futebol entre miúdos, num campo de terra, nos anos 60.

Há muito mérito na escolha de narração porque, ao recordar-me do imenso leque de personagens e histórias, julgo que facilita imenso o acompanhamento do enredo. Não há uma aparição sem propósito e é o próprio Buscapé a alertar-nos para esse facto e a manter-nos atentos, quase em diálogo com os espectadores.

O filme divide-se em três frases, cada qual com características distintas, acentuadas pela aplicação distinta de elementos técnicos a cada uma, mas que correspondem, de forma global, ao escalar do nível de criminalidade. Podemos estar na Cidade de Deus, mas no sentido mais lato ou restrito, Deus não parece morar naquela favela. A regra de que uma qualquer infracção é crime não tem aplicabilidade, aqui, porque o nível de crime é, na verdade, crucial para o desenrolar do filme.

A primeira parte acompanha, essencialmente, o Trio Ternura, formado pelo Cabeleira, pelo Alicate e pelo Marreco. Há uma certa sensação de inocência neste início. Há pobreza e há criminalidade mas há, também, uma quase ausência de maldade pura. Roubam mas não matam. O narcotráfico ainda não se entranhou pela favela. "Alvorada lá no morro/Que beleza/Ninguém chora/Não há tristeza/Ninguém sente dissabor/O sol colorindo é tão lindo/E a natureza sorrindo/Tingindo, tingindo".

A transição para a segunda fase acontece com o final do Trio Ternura e com o olhar atento a Dadinho, uma criança que pelas suas acções, e pelo seu olhar, nos deixa adivinhar que nada ficará melhor. Poucos anos depois, Dadinho, que se passa a dar por outro nome, “meu nome agora é Zé Pequeno”, e o seu amigo de infância, Bené (Phellipe Haagensen), constroem um autêntico império de narcotráfico na Cidade de Deus. Reina uma aparente calma e ordem, construída à lei da bala. Zé Pequeno, ao contrário de Bené, crava sempre mais poder e quer apoderar-se da boca de Cenoura (Matheus Nachtergaele), que Bené protege.

Depois da morte de Bené, Cenoura sabe que está em perigo, mas qual a melhor cidade para acontecerem milagres do que a Cidade de Deus? Zé Pequeno humilha Mané Galinha (Seu Jorge) e viola a sua namorada, acabando por matar, ainda, o seu irmão. Parece ser o despertar de um novo herói, que se alia a Cenoura para acabar com Zé Pequeno. Mas nesta história não existem heróis. Inicia-se, então, a terceira fase do filme, com a guerra violenta entre as duas partes, caracterizada pela banalização da morte, que culminará com a morte de Zé Pequeno. É uma morte curiosa, retrato da podridão moral onde as crianças se ensinam elas próprias sobreviver.

Cidade de Deus é um retrato fiel de uma autêntica cultura do crime. Pode-se pensar que existem ajustes pessoais, ou interesses próprios, porque o existem, de facto, mas sobressai, sobretudo, a subjugação e vitimação face ao sistema corrupto e criminal há muito instalado. Há, também, uma sensação predominante de realidade, em nada deturpado pelo uso excelente de elementos técnicos que o compõem (a fotografia que escurece; as letras da banda sonora; a câmara que abandona uma posição clássica e tradicional, tornando-se mais flexível), e que merecem uma ressalva por acentuarem e caracterizarem as diferentes fases. E, em última instância, é uma lembrança de que existem sempre verdadeiras excepções à regra porque Buscapé consegue sobreviver a tudo isto sem se sentir verdadeiramente tentado a imiscuir-se no mundo do crime. Alternativamente, serve-se dele para encontrar uma saída, através da sua câmara fotográfica.

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