terça-feira, 17 de maio de 2016

XXI Globos de Ouro | A Análise da Gala do Ano


Depois do produto de fortíssima qualidade apresentado em 2015, eram muitas as expectativas para a XXI Gala dos Globos de Ouro. O desafio estava lançado: superar a produção de excelência que em maio do ano passado chegou aos ecrãs nacionais. SIC e CARAS assumiram o objectivo de levar a cabo os melhores Globos de Ouro desde 1996, e no palco do Coliseu dos Recreios apresentaram um trabalho criativo notável que pôs em prática o esforço, a dedicação e o talento da casa. Mas se, ao vivo, este pode até ter sido o melhor espectáculo dos últimos 21 anos (não duvidamos disso), nos ecrãs a história foi ligeiramente diferente. Em causa esteve, para não variar, a velha troika do costume: erros técnicos, falhas nos timings e incoerências da realização. Mas vamos por partes.

Numa gala que fica na história por ser a primeira emitida no formato 16:9 e por marcar a estreia do entretenimento da SIC nas transmissões em alta definição, as questões técnicas foram, ironicamente, o seu grande calcanhar de Aquiles. Muitos poderão afirmar que falhas técnicas não se controlam pois acontecem mesmo com a melhor das preparações. Aceitamos essa justificação, embora tendamos a discordar dela, ou não fosse esta uma emissão preparada ao pormenor durante meses. Situações como perdas de sinal de câmaras ou falhas sucessivas de chroma em transições de separadores não são, de todo, aceitáveis.

Não negamos o esforço da equipa de realização e deixamos até uma nota muito positiva para a qualidade da emissão em HD. Mas o tão desejado e reclamado formato 16:9 - que, há que dizê-lo, só veio engrandecer o espectáculo - não faz o trabalho por si só; há que saber tirar partido dos planos, há que ter perícia na escolha das perspectivas e há, acima de tudo, que ser inteligente no enquadramento da acção. Isso nem sempre aconteceu (tome-se como exemplo o momento de homenagem aos artistas falecidos, onde grande parte dos rostos foram impossíveis de identificar em casa).

A expressão "tempo é dinheiro" assume em televisão uma dimensão gigante e no ecrã um par de segundos pode tornar-se numa verdadeira eternidade. Numa gala já de si demasiado longa (o que também seria atenuado se começasse mais cedo e não houvesse a tentação de utilizar o horário para promoção de novelas) houve um claro desperdício de tempo: no arranque das várias partes do espectáculo (depois dos separadores de intervalo, as actuações musicais demoraram a começar); nos discursos dos vencedores (grande parte deles arrastados e sem conteúdo); nas apresentações demoradas de alguns co-hosts (que puderam "recusar" o teleponto pelo facto de terem recebido cartões com o texto); e, por último, nos momentos publicitários (que por várias vezes ditaram a interrupção do espectáculo para grafismos do patrocinador surgirem com a plateia em plano, situação que podia perfeitamente acontecer durante a emissão).

Mas deixemos a troika de lado e centremo-nos nos pontos fortes desta XXI Gala do Ano. E foram muitos, a começar desde logo pelas novidades cenográficas. O conceito sofreu alterações significativas com a deslocação da orquestra do "piso inferior" (se é que assim lhe podemos chamar) para o palco, que tornou possível a introdução de uma grande escadaria em vez das tradicionais mini escadas laterais. Aplaudimos estas mudanças, embora questionemos se a nova posição da orquestra liderada por Nuno Feist não terá retirado espaço ao plateau e se não terá posto em causa a capacidade do palco se modificar ao longo do espectáculo, como de resto aconteceu em anos anteriores. Serão, certamente, questões a repensar em próximas edições.

Desde início os olhos estavam voltados para um momento que, ainda antes de acontecer, já dominava o hype em torno da gala. Falamos do número de abertura, anunciado pelos responsáveis como o "mais fantástico dos últimos 21 anos". Ao longo de quase 7 minutos de actuação, a nova geração de talentos do canal deu início ao espectáculo, com um tema composto por Agir e uma coreografia assinada por Cifrão. Foi, arriscamos dizer, a mais completa e a mais original abertura de que há memória na história destes Globos de Ouro, e só pecou por alguns playbacks indesejáveis que se foram fazendo ouvir. Mas estamos certos que é um conceito com todas as condições para ser repetido no futuro.

Bárbara Guimarães entrou em cena com a força que lhe é característica, e do primeiro ao último minuto apresentou sem nervos, sem hesitações e sem incoerências no discurso. Uma palavra de apreço seja também dirigida aos responsáveis pela escrita do guião, que souberam incluir toques inteligentes de humor e actualidade. Ainda assim, e por mais que apreciemos o trabalho da apresentadora, questionamos se ao fim de tantos anos não precisam estes Globos de um novo rosto como anfitrião. Afinal, a novidade desperta curiosidade e a curiosidade gera adesão.

Curiosidade estava também depositada na prestação de Luís Franco-Bastos. Mas, tal como se esperava, o desempenho do humorista foi um dos pontos fortes da noite. As suas intervenções foram, todas elas, soberbas, com piadas inteligentes e um humor arriscado, sem medos, bem à imagem do que se faz na maior gala do mundo do outro lado do Atlântico. E por falar em Óscares, deixamos a sugestão: porque não replicar o estilo americano e colocar um humorista como anfitrião deste evento? Temos a certeza que Luis Franco-Bastos daria um host à altura.

Marisa Liz deu voz a outro dos momentos altos da noite: a homenagem a todos os nomes grandes das artes, desporto e da cultura nacional que partiram recentemente. Emocionante é a palavra certa para descrever a interpretação de "Rosa Sangue", com uma plateia em lágrimas que aplaudiu do início ao fim. A música, de resto, foi uma das atracções principais desta XXI Gala do Ano. Além de se ouvirem 3 dos temas nomeados para Melhor Música, também os The Gift subiram ao palco para interpretar "Clássico", tema de genérico de "Rainha das Flores".

Mas há ainda outros pontos a destacar pela positiva, nomeadamente o trabalho gráfico (genérico, separadores, oráculos, janelas, etc.) e os vídeos de introdução das categorias (protagonizados pelo núcleo cómico de "Coração D’Ouro"). Também a plateia - bastante activa, como há muito não se via - contribuiu para o espectáculo, e foi-se manifestando ao longo de toda a emissão.

No que aos vencedores diz respeito, não houve espaço para grandes novidades (ver lista completa aqui). Repetiram-se as ausências de sempre (que, diga-se, já começam a cansar) e voltaram a ouvir-se os discursos enfadonhos do costume. Mariana Pacheco foi, sem surpresas, eleita pelos portugueses como a Revelação de 2015. Já o prémio de Mérito e Excelência foi entregue ao cantor Marco Paulo, que assinala este ano 50 anos de carreira. Uma merecida distinção. Refira-se, no entanto, a falta da categoria Televisão nesta lista de vencedores. Naquele que é um dos eventos da televisão portuguesa por excelência, chega a ser um contra-senso que o que de melhor se faz no pequeno ecrã lusitano não seja premiado. Pode ser que as coisas mudem entretanto.

Num cômputo geral, e em jeito de conclusão, podemos afirmar que SIC e CARAS apresentaram uma gala bastante boa mas que, pelos erros mencionados inicialmente, não foi capaz de superar a de 2015 - até ao momento, a melhor de sempre destes Globos de Ouro. Numa escala de 0 a 10, 8 será uma classificação justa para esta emissão. Em 2017 só o melhor se pode esperar deste evento, ou não fosse ele coincidir com a comemoração dos 25 anos da estação. E em ano de bodas de prata, o ouro destes globos deverá brilhar mais do que nunca - pelo menos, assim se espera!

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