domingo, 5 de junho de 2016

OLHAR A 7ª ARTE | O Táxi de Jafar Panahi


Em 2010, depois dos protestos contra a legitimidade democrática do Presidente Ahmadinejad, Jafar Panahi foi sentenciado a seis anos de prisão e proibido de realizar filmes durante vinte anos, bem como de abandonar o país. No ano seguinte, passou a prisão domiciliária e, agora, apesar de se movimentar livremente dentro do país, continua impossibilitado de sair do Irão. A resposta de Panahi, fiel a um histórico problemático com as autoridades, foi continuar a realizar filmes. Taxi, vencedor do Urso d’Ouro, em 2015, é o seu filme mais recente.

Em Taxi, o realizador senta-se ao volante de um táxi, que conduz pelas ruas do Teerão, interagindo com os passageiros, muito em jeito de documentário. O filme, que nunca abandona este espaço exíguo, tem uma agenda clara, mas absolutamente imperativa. No entanto, contrariando o carácter da mensagem, no mínimo duro, segue uma abordagem superficialmente leve, mesmo a roçar o engraçado, que no final fará qualquer um ferver por dentro.



Panahi podia, realmente, ser um qualquer taxista que encontramos por aí, não fosse o fraco sentido de orientação, apontado mais do que uma vez por diferentes passageiros, e as câmaras localizadas dentro do veículo. O realizador não procura negar ou obscurecer o seu propósito, afirma-o sim, mais do que uma vez, nas pessoas de Omid e Nasrin Sotoudeh, que é, no universo da vida real, uma reconhecida advogada iraniana na área dos direitos humanos.

Os primeiros passageiros (um homem e uma mulher) que partilham o táxi, encetam uma discussão a partir de um comentário do homem que afirma a necessidade de mais execuções, posição que a mulher rejeita. Para o homem a questão é simples: "Law and sharia have spoken, so chill out, lady". Segue-se Omid, propositadamente uma "figuraça", que acarreta uma certa dose de heroísmo inesperado no seu ofício: não fosse por homens como ele, os iranianos não teriam acesso a filmes de Woody Allen ou a séries como The Walking Dead. Em última instância, os próprios filmes de Jafar Panahi, que não podem ser exibidos legalmente no país, permaneceriam desconhecidos na sua própria casa.

A meio dessa viagem, socorrem um homem que julga estar a morrer e, por isso, pede para gravar o seu testamento, pois de outra forma a mulher não terá direito a nada. Mais tarde, a mulher ligará para pedir o vídeo, porque, bem de acordo com o ditado popular português, "mais vale prevenir do que remediar". Depois, levará, ou tentará levar, duas mulheres que pretendem devolver dois peixes, que mantiveram durante um ano, à fonte, no dia do aniversário de ambas. Uma superstição quase tão fanática como o regime.

É, no entanto, da sua profissão que partem muitas das reflexões deste Taxi. Enquanto Omid procura vender alguns filmes a um estudante de cinema, este, evidentemente entusiasmado por conhecer Panahi, pede alguns conselhos para um trabalho que tem de entregar. Já leu muitos livros e viu muitos filmes mas não consegue decidir qual deverá ser a sua história. O realizador oferece um conselho ensopado no próprio realismo que marca a sua obra."Those films are already made; those books are already written. You have to look elsewhere...".

Neste seguimento, entra em cena a sua sobrinha Hana (que é, efectivamente, sobrinha do realizador), que este vai buscar à escola. Um dos seus trabalhos de casa é a produção de uma curta distribuível. A pequena Hana enumera, então, as condições estabelecidas para a produção de filmes passíveis de distribuição no país, perante um sorriso não só condescendente como algo irónico do tio, que as conhece particularmente bem, especialmente a questão do realismo sórdido, que a Hana tantas dúvidas suscita. A professora terá explicado que deveriam mostrar a realidade mas não a realidade mesmo, se esta for desagradável. Panahi responde objectivamente que existem realidades que eles não querem mostrar e Hana replica, com naturalidade, que eles não a mostram mas fazem acontecer essa realidade.

Não obstante a exposição didáctica do conceito de realismo sórdido (nada tão eficaz como colocar as verdades nas bocas dos mais pequenos), o realizador faz uso do absurdo e do caricato, e, em forma de brincadeira, evidencia o paradoxo desta noção. Hana filma um rapaz que apanha uma determinada quantia de dinheiro que um noivo tinha acabado de deixar cair ao chão, sem se aperceber. Esta acção desvirtuosa entra em conflito com as condições enumeradas pela professora, pelo que, em prol da distribuição, exige que o rapaz devolva o dinheiro para que o filme possa voltar a ser distribuível, construindo desta forma outra realidade.

Já no final desta viagem, dá boleia a uma mulher que conhece bem, a advogada Nasrin Sotoudeh, que pretende visitar uma prisioneira em greve de fome, que aborda as consequências da oposição ao regime, relembrando que já ambos estiveram presos e em greve de fome, além de que também ela foi proibida de exercer. Antes de abandonar o táxi, Sotoudeh oferece uma rosa à câmara, e quem sabe ao mundo, afirmando sorridente: "because the people of cinema can be relied on". É este gesto de boa vontade que ressoa mesmo face à conclusão abrupta do filme e à inexistência de créditos.

Taxi está longe de ser um filme que fica na memória pelos seus feitos técnicos ou artísticos. Aliás, nesses termos, poderá mesmo aproximar-se do amadorismo. Apesar disso, é um filme necessário por evidenciar uma das faces do regime iraniano e pelo dilema que traz para cima da mesma: como fazer cinema num país que restringe a liberdade artística dos seus realizadores? Não havendo uma resposta, fica a certeza que é possível, e este filme prova-o.

No Festival de Berlim, onde o filme foi premiado, o presidente do júri, Darren Aronofsky, descreveu Taxi como "a love letter to cinema... filled with love for his art, his community, his country and his audience". Não teria encontrado palavras mais adequadas.

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